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Indústria do álcool mira crianças para impulsionar consumo futuro, alerta especialista

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A indústria de bebidas alcoólicas continua a desenvolver estratégias de marketing que, mesmo indiretamente, alcançam e influenciam crianças e adolescentes, com o objetivo de formar futuros consumidores. O alerta vem de Raúl Martín Del Campo Sánchez, assessor regional de políticas de álcool e drogas psicoativas da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), que expressa grande preocupação com a exposição precoce dos jovens a essas mensagens.

Sánchez, especialista em psicologia da dependência com 23 anos de experiência em prevenção e tratamento, destacou a gravidade da situação durante sua participação na Conferência Global de Políticas do Álcool (GAPC), realizada no Rio de Janeiro em abril. Em entrevista, ele ressaltou que a indústria não espera a maioridade para iniciar a conquista de seu público, investindo em uma relação simbólica com os produtos que se manifesta a longo prazo.

Estratégias de Marketing e a Vulnerabilidade Infantil

A familiaridade com marcas de bebidas alcoólicas começa muito cedo na vida das crianças. Segundo Raúl Martín Del Campo Sánchez, há evidências claras de que, já aos 6 ou 7 anos de idade, muitas crianças conseguem identificar as principais marcas de cerveja presentes em suas comunidades. Essa exposição precoce contribui significativamente para a construção de uma percepção positiva em relação ao consumo de álcool.

O especialista explica que, ao chegarem à adolescência e terem o primeiro contato com a bebida, esses jovens já carregam a expectativa de experiências positivas. Esse marketing direcionado, ainda que de forma sutil e indireta, funciona como uma estratégia de longo prazo, preparando o terreno para a formação de novos consumidores. É um trabalho contínuo de preparação que visa garantir a perpetuação do mercado.

A Presença do Álcool em Espaços Jovens e o Impacto do Marketing

Um dos canais mais eficazes para essa exposição precoce é a presença massiva de marcas de cerveja em eventos esportivos, seja através da comercialização direta ou do patrocínio. Essa estratégia garante que crianças e adolescentes sejam expostos a publicidade de álcool em contextos de celebração e lazer, normalizando o consumo e associando-o a momentos de alegria e sucesso.

Um exemplo notório foi a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, onde se estima que cerca de 300 milhões de crianças e adolescentes em todo o mundo foram expostos a anúncios de cerveja e bebidas destiladas. Essa exposição em larga escala cria um ambiente onde o álcool é visto como parte integrante da cultura e do entretenimento, dificultando a percepção de seus riscos.

A preocupação se estende às novas tecnologias de marketing e redes sociais, um movimento já observado na indústria do tabaco, que utiliza essas plataformas para atingir crianças e adolescentes entre 13 e 15 anos, conforme pesquisa da OMS divulgada em 2025. A indústria do álcool pode estar seguindo um caminho similar, explorando o ambiente digital para alcançar um público ainda mais jovem e vulnerável.

O Impacto no Consumo de Álcool entre Jovens Brasileiros

Os dados nacionais confirmam o impacto dessas estratégias. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024 revelou que 53,6% dos alunos brasileiros com idades entre 13 e 17 anos já experimentaram alguma bebida alcoólica. A disparidade de gênero é notável, com 57,5% das meninas e 49,7% dos meninos nessa faixa etária relatando ter consumido álcool.

Mais alarmante ainda é o dado de que 29,3% desses jovens tiveram seu primeiro contato com bebidas alcoólicas aos 13 anos ou menos. Essa precocidade no consumo aumenta os riscos de desenvolvimento de dependência e outros problemas de saúde a longo prazo. Uma pesquisa Datafolha de 2025 corrobora essa tendência, mostrando que 27% dos jovens de 16 e 17 anos já consomem álcool, em comparação com 49% da população adulta acima de 18 anos.

A Necessidade de Regras Rígidas e Prevenção

Diante desse cenário, a atuação de organizações como a Opas e a OMS é crucial. A discussão sobre a necessidade de regras mais rígidas para a publicidade de bebidas alcoólicas, especialmente aquelas que podem atingir crianças e adolescentes, torna-se um imperativo de saúde pública. Sem uma regulamentação eficaz, a influência da indústria continuará a moldar a percepção dos mais jovens sobre o consumo de álcool, com consequências potencialmente devastadoras.

É fundamental que a sociedade, os governos e as famílias estejam atentos a essas estratégias e promovam a educação e a prevenção desde cedo. A proteção da infância e adolescência contra a exposição precoce ao álcool é um investimento na saúde e no futuro de toda a nação. Para mais informações sobre saúde pública e temas relevantes, continue acompanhando o M1 Metrópole, seu portal de notícias com informação relevante, atual e contextualizada, sempre comprometido com a qualidade e a profundidade jornalística.

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