Um dos principais portais de comércio de botânica no Brasil, o site Natureza Divina, anunciou a suspensão das vendas do Psilocybe cubensis, popularmente conhecido como “cogumelos mágicos” devido às suas propriedades psicodélicas. A medida foi tomada após uma decisão judicial, que faz parte de uma investigação em andamento por suspeita de tráfico de drogas.
A empresa, que atua desde 2005, nega veementemente qualquer prática criminosa. Em sua defesa, o Natureza Divina argumenta que a comercialização do fungo não configura crime, uma vez que o Psilocybe cubensis não está listado entre as plantas e fungos proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Contudo, a controvérsia reside na classificação de seus princípios ativos, a psilocibina e a psilocina, que figuram na Lista F2 do órgão, que proíbe 182 substâncias psicotrópicas no país.
O início da investigação e o caso no aeroporto
A investigação que levou à suspensão das vendas teve início em 28 de novembro de 2024. Naquela data, uma mulher foi flagrada tentando embarcar em um voo no Aeroporto do Guararapes, em Recife, com destino ao Rio de Janeiro. Ela portava três gramas de cogumelos “escondidos nas partes íntimas”, conforme detalha o inquérito policial ao qual o M1 Metrópole teve acesso.
Embora a passageira tenha sido autuada por posse de drogas para consumo pessoal, o incidente desencadeou uma apuração mais ampla contra o site Natureza Divina e seu proprietário, Rogério Di Girolamo. Durante a abordagem, a mulher confessou aos policiais ter adquirido os cogumelos por meio do portal online.
Inicialmente, por se tratar de um caso ocorrido em ambiente aeroportuário, a investigação foi encaminhada ao Ministério Público Federal (MPF) de Pernambuco. No entanto, em 2025, o MPF remeteu o inquérito para a Polícia Civil de São Paulo, estado onde a empresa está registrada. A justificativa para a transferência foi a suspeita de que o site estaria “vendendo cogumelos mágicos livremente pela internet”, exigindo uma investigação mais aprofundada sobre a legalidade de suas operações.
A ambiguidade legal e a classificação da Anvisa
A situação do Psilocybe cubensis no Brasil é marcada por uma notável ambiguidade legal. Enquanto o fungo em si não aparece na Lista E da Anvisa, que elenca plantas e fungos de uso proibido, seus componentes psicoativos — a psilocibina e a psilocina — são classificados como substâncias psicotrópicas de uso vetado desde 1998, conforme a Lista F2. Essa distinção é o cerne da “controvérsia jurídica relevante” alegada pela defesa do Natureza Divina.
A ausência do fungo na lista de proibições diretas abre uma brecha para interpretações sobre a legalidade de sua comercialização, especialmente quando vendido como “amostra botânica” ou para fins de pesquisa. Contudo, a presença de seus princípios ativos na lista de substâncias controladas sugere que qualquer uso que vise a extração ou o consumo dessas substâncias pode ser enquadrado como ilícito.
Em sites especializados, o Psilocybe cubensis, o cogumelo alucinógeno mais conhecido e consumido globalmente, é comercializado no Brasil por uma média de R$ 60 o grama. Essa precificação e a facilidade de acesso online levantam preocupações sobre o controle e a fiscalização de produtos que, embora não proibidos em sua forma natural, contêm substâncias de uso restrito.
Potencial terapêutico e o debate científico
Paralelamente à discussão sobre a legalidade, a psilocibina tem ganhado destaque em pesquisas científicas no Brasil e no exterior. Nos últimos anos, estudos têm explorado seu potencial terapêutico no tratamento de condições como depressão, ansiedade e dependência de substâncias, incluindo álcool, cigarro e crack. Essa linha de pesquisa adiciona uma camada de complexidade ao debate, pois sugere benefícios médicos para uma substância atualmente proibida para uso recreativo.
A comunidade científica busca entender melhor os mecanismos de ação da psilocibina e como ela pode ser utilizada de forma segura e controlada em contextos clínicos. Esse interesse crescente por terapias psicodélicas, embora promissor, ainda enfrenta barreiras regulatórias significativas, especialmente em países com legislações mais restritivas sobre essas substâncias.
A investigação contra o Natureza Divina, portanto, não é apenas um caso isolado de suposto tráfico, mas um reflexo de um debate mais amplo sobre a regulamentação de substâncias psicoativas, o avanço da pesquisa científica e a interpretação da lei em um cenário de rápida evolução do conhecimento e das práticas sociais. A decisão final sobre a “real” delimitação legal do Psilocybe cubensis no Brasil poderá ter implicações significativas para o comércio, a pesquisa e a saúde pública.
Para mais informações sobre as listas de substâncias controladas pela Anvisa, consulte o portal oficial da agência.
O M1 Metrópole segue atento aos desdobramentos deste caso, que coloca em xeque a interpretação da legislação brasileira sobre substâncias psicotrópicas e a comercialização de produtos naturais. Continue acompanhando nosso portal para informações relevantes, atualizadas e contextualizadas sobre este e outros temas que impactam a sociedade. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, oferecendo uma leitura jornalística aprofundada e imparcial.