PUBLICIDADE

Cobrasma: a crise de 1986, o mercado em choque e o diálogo de Vidigal com a imprensa

14.ago.97/Folhapress
14.ago.97/Folhapress

A morte de Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho, ocorrida na última segunda-feira (29) aos 87 anos, reacende a memória de um dos episódios mais emblemáticos da economia brasileira nos anos 1980: a crise da Cobrasma. O empresário, figura central na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e na própria Companhia Brasileira de Material Ferroviário, manteve um diálogo incomum e revelador com o colunista Frederico Vasconcelos, então editor do Painel Econômico da Folha de S.Paulo, em um período de grande instabilidade econômica e incerteza no mercado de capitais.

O caso Cobrasma, que culminou em uma reviravolta de projeções financeiras e perdas milionárias para investidores, ilustra as complexidades e os riscos inerentes ao ambiente econômico do Brasil sob o Plano Cruzado. A história, detalhada por Vasconcelos em suas memórias, oferece um olhar sobre a relação entre o poder empresarial, a regulação do mercado e o papel da imprensa na fiscalização e informação pública.

A reviravolta da Cobrasma em 1986 e o Plano Cruzado

O ano de 1986 foi marcado por expectativas e tensões no cenário econômico brasileiro, especialmente com a implementação do Plano Cruzado e seu congelamento de preços. Nesse contexto, a Cobrasma, uma das gigantes da indústria nacional, havia realizado a maior emissão de ações de sua história, colocando à venda 25,5 bilhões de papéis. A operação, sustentada por projeções otimistas de lucro (cerca de R$ 50,4 milhões, em valores atualizados) e pela garantia firme de bancos de peso como Bradesco, Crefisul e BCN, atraiu milhares de pequenos e médios investidores, além de 124 instituições financeiras.

A euforia, no entanto, durou pouco. No último dia daquele ano, a empresa publicou uma discreta nota na Gazeta Mercantil, sem sua logomarca, confirmando o que o mercado já temia: a estimativa de resultado para 1986 havia sido drasticamente alterada de lucro para um prejuízo equivalente a aproximadamente R$ 66 milhões. A justificativa da Cobrasma apontava para a frustração das expectativas de correção de preços de seus produtos, criadas por “fontes autorizadas do governo, ora por meio de insinuações ora por meio de informações verbais oficiosas”, em meio ao congelamento imposto pelo Plano Cruzado. A notícia gerou um abalo significativo na confiança do mercado e um prejuízo considerável para os acionistas.

O diálogo com a imprensa e a busca por respostas

A atuação do jornalista Frederico Vasconcelos foi crucial para desvendar a situação da Cobrasma. Alertado por um leitor sobre a desvalorização diária das ações da empresa, Vasconcelos iniciou uma apuração rigorosa. Após identificar a nota da Cobrasma, ele buscou informações junto a um técnico da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e ouviu o diretor financeiro da empresa, Ércio Pinto Tavares. Tavares reconheceu a frustração dos aplicadores, mas defendeu a solidez da empresa, atribuindo o revés a um “ano errado, um azar desgraçado”.

A repercussão da primeira reportagem foi imediata, gerando provocações e a necessidade de um contato direto com Vidigal. Após um ofício da Folha de S.Paulo, o empresário telefonou a Vasconcelos, propondo um acordo: o jornalista o procuraria diretamente antes de publicar fatos sobre a Cobrasma, recebendo em troca seus telefones pessoais e o da fazenda. Esse episódio, que demonstra a tensão e a complexidade da relação entre grandes empresários e a imprensa, é um marco na história do jornalismo econômico brasileiro.

Desdobramentos legais e a queda da gigante industrial

A crise da Cobrasma teve longos desdobramentos. Em março de 1991, Vidigal informou a Vasconcelos que a empresa entraria com pedido de concordata, alegando que a Cobrasma havia sido “engolida, atropelada pelo caos da economia nacional” e atribuindo as dificuldades aos “desmandos pela orientação vacilante e contraditória que vem sendo imposta à nação”.

No âmbito legal, o caso também gerou controvérsias. Em 1987, o Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional derrubou multas milionárias aplicadas pela CVM à Cobrasma. O então procurador da República, Antônio Augusto César, foi alvo de sindicância em 1989 por perder o prazo para recorrer de uma decisão favorável a Vidigal, proferida pelo juiz federal João Carlos da Rocha Mattos. Anos mais tarde, em 2003, tanto o procurador quanto o juiz seriam investigados na Operação Anaconda, que desbaratou uma quadrilha que negociava decisões na Justiça Federal, culminando na prisão de Rocha Mattos. Esses eventos sublinham a intrincada rede de interesses e a fragilidade institucional da época.

O legado de Vidigal e a ética empresarial

A trajetória de Luís Eulálio Vidigal, marcada por sua liderança na Fiesp e seu envolvimento na crise da Cobrasma, oferece insights sobre a personalidade de um empresário que, apesar das adversidades, manteve um certo pragmatismo. Vasconcelos relembra um episódio em que Vidigal, ao ser provocado sobre a crise, respondeu: “Diga ao Fred que eu posso não ser inteligente, mas burro eu não sou. Eu não faria isso”. Outra anedota, citada no Valor, revela sua autocrítica quando Mario Henrique Simonsen o indicou para o Conselho Monetário Nacional: “Mario, não sei se sou ilibado ou não. Mas notório saber econômico, definitivamente não tenho”.

Essas passagens, extraídas do livro “Anatomia da Reportagem” de Frederico Vasconcelos, destacam a complexidade de uma figura que navegou por águas turbulentas da economia e da política brasileiras. A crise da Cobrasma, mais do que um mero caso empresarial, tornou-se um estudo de caso sobre a importância da transparência, da responsabilidade corporativa e da vigilância jornalística em um país em constante transformação. Para mais detalhes sobre a atuação da CVM, você pode consultar o site oficial da Comissão de Valores Mobiliários.

Acompanhe o M1 Metrópole para se manter informado sobre os principais acontecimentos do Brasil e do mundo. Nosso compromisso é com a informação relevante, atual e contextualizada, oferecendo uma cobertura aprofundada sobre os temas que impactam a sua vida e a sociedade.

Leia mais

PUBLICIDADE