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Clube de Leitura do Rap leva versos periféricos para o centro do debate literário em São Paulo

Clube de Leitura do Rap leva versos periféricos para o centro do debate literário em São Paulo

Em um cenário onde a literatura tradicional frequentemente se limita a cânones estabelecidos, uma iniciativa em São Paulo propõe inverter a lógica: o que acontece quando letras de rap e funk são lidas com o mesmo rigor crítico dedicado a um romance ou poema? O Clube de Leitura do Rap, que inicia uma nova temporada no Sesc Vila Mariana, na Zona Sul da capital, convida o público a desconstruir composições musicais ao lado dos próprios criadores, transformando a escuta em um exercício de análise literária.

A música como objeto de estudo e reflexão

A proposta, idealizada por Nerie Bento em parceria com o pesquisador Marco Aurélio e o antropólogo Viny Rodrigues, não busca apenas validar o gênero como literatura, mas sim reconhecer a densidade textual que já existe nas periferias. A cada encontro, duas composições são selecionadas para uma leitura coletiva. O objetivo é identificar recursos estilísticos, metáforas e construções narrativas que, muitas vezes, passam despercebidos durante a audição cotidiana.

Para Nerie Bento, a experiência de retirar a música e focar no texto escrito revela camadas profundas de significado. “Quando lemos a letra, somos obrigados a prestar atenção à construção do texto. É aí que aparecem os recursos literários que passam despercebidos na escuta”, explica a idealizadora. A iniciativa dialoga com um movimento crescente de valorização da leitura no Brasil, impulsionado por comunidades literárias e pela expansão do mercado editorial, que registrou um crescimento de 13% no número de estabelecimentos ligados ao setor entre 2023 e 2025, segundo dados da Câmara Brasileira do Livro.

Diálogo entre artistas e público

O diferencial do projeto é a presença dos autores. A temporada conta com a participação de nomes como Parteum, MC Hariel e Rico Dalasam. Esse encontro direto entre quem escreve e quem interpreta permite que o público compreenda o contexto social, as referências culturais e as motivações por trás de cada verso. A interação, segundo os organizadores, frequentemente surpreende até mesmo os artistas, que descobrem novas interpretações para suas próprias obras a partir do olhar da plateia.

A escolha de incluir o funk nesta edição, representada pelo MC Hariel, traz uma camada política urgente ao debate. Nerie Bento destaca que o gênero enfrenta hoje um processo de criminalização similar ao que o rap sofreu em décadas passadas. Ao colocar o funk no centro da discussão literária, o projeto busca combater a tentativa de aniquilação de um ecossistema cultural periférico, reafirmando que essas letras produzem conhecimento e refletem realidades sociais complexas.

Cronograma e participação

Os encontros são gratuitos e abertos ao público, sem necessidade de retirada antecipada de ingressos. A programação no Sesc Vila Mariana segue as seguintes datas:

  • 22 de agosto: Encontro com Parteum.
  • 16 de setembro: Encontro com MC Hariel.
  • 17 de outubro: Encontro com Rico Dalasam.

O projeto reforça a importância de descentralizar o acesso à cultura e à análise crítica. Para acompanhar mais desdobramentos sobre a cena cultural paulistana e outros temas relevantes, continue acompanhando o M1 Metrópole, seu portal de informação com compromisso, variedade e olhar atento aos movimentos que transformam a sociedade.

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