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O clamor por dignidade: jovem com endometriose crônica pede eutanásia na Colômbia

O clamor por dignidade: jovem com endometriose crônica pede eutanásia na Colômbia
Arquivo Pessoal

Aos 26 anos, a colombiana Melisa Gaona enfrenta uma realidade de dor excruciante e persistente, consequência de uma endometriose em estágio avançado que comprometeu diversos órgãos e sua qualidade de vida. Após anos de um calvário marcado por diagnósticos tardios e tratamentos ineficazes, Melisa tomou uma decisão drástica que ecoou para além das fronteiras da Colômbia: formalizou um pedido de eutanásia, buscando alívio para um sofrimento que considera insuportável.

Seu clamor, “Eu não quero morrer, quero parar de sentir dor”, tornou-se um símbolo da luta por dignidade e por um sistema de saúde que ouça e acolha as pacientes. A história de Melisa não apenas expõe a complexidade da endometriose, uma doença que afeta milhões de mulheres globalmente, mas também joga luz sobre o debate ético e legal em torno da morte digna, especialmente em países como a Colômbia, pioneiro na regulamentação da eutanásia.

A jornada de dor e o diagnóstico tardio

Desde a infância, Melisa convive com os sintomas da endometriose, uma doença inflamatória crônica em que um tecido semelhante ao que reveste o útero cresce fora dele. Os sinais se agravaram na primeira menstruação, aos 10 anos, mas o diagnóstico formal só veio em 2024, após uma década e meia de sofrimento e incertezas. Durante esse período, ela colecionou hipóteses erradas, que variaram de apendicite a câncer, e até mesmo transtornos psicológicos.

A jovem relata ter sido frequentemente minimizada por profissionais de saúde. Em uma das muitas idas ao pronto-socorro, ouviu que não era “uma urgência vital” e, em outro momento, que se quisesse morrer, deveria “se matar”. Essa falta de escuta e acolhimento gerou uma profunda frustração. “O que mais me frustra é não ter sido ouvida e atendida a tempo”, conta Melisa. “Nem minha própria família acreditava. Era eu contra o mundo.”

A doença impactou severamente sua rotina. Melisa parou de trabalhar e não sabe se um dia poderá retornar. Dormir tornou-se uma tarefa árdua, e os medicamentos, em alguns dias, a deixam tão anestesiada que ela se sente desconectada do próprio corpo. O sonho de cursar medicina na faculdade ficou pelo caminho, uma perda que a frustra profundamente.

O pedido de eutanásia e a repercussão pública

Em 2025, após anos de cirurgias, medicamentos e internações sem alívio duradouro, Melisa tomou a decisão de formalizar o pedido de eutanásia. A ideia surgiu durante uma internação, quando ela percebeu que não estava vivendo com dignidade. “Não porque eu não quisesse a vida”, explica, “mas porque eu não queria continuar sofrendo com a dor. O pedido veio mais do desejo de não sentir mais dor.”

Para dar visibilidade ao seu caso, Melisa gravou um vídeo que viralizou, onde afirmava estar presa em uma “espiral de sofrimento”. A exposição, contudo, teve um custo, e ela passou a receber mensagens de estranhos mandando-a tirar a própria vida. Com acompanhamento jurídico do DescLAB, uma organização colombiana que litiga pelo direito à morte digna, Melisa levou o caso à Justiça por meio de uma ação de tutela.

Para médicos que tratam de dor crônica, frases como a de Melisa dizem menos sobre um desejo primário de morte e mais sobre o abandono. O neurocirurgião Pedro Henrique Cunha aponta que, na maioria das vezes, expressa o limite de uma pessoa que perdeu funcionalidade, autonomia, sono, trabalho, vínculos e esperança de melhora.

Endometriose: uma doença subestimada e o desafio do tratamento

A endometriose não é uma doença incomum. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 190 milhões de mulheres e meninas em idade reprodutiva convivem com ela no mundo, aproximadamente uma em cada dez. Apesar da alta prevalência, o caminho até o diagnóstico é longo, com estudos apontando um intervalo médio de seis a dez anos entre os primeiros sintomas e a confirmação da doença.

A ginecologista Raquel Magalhães, especializada em endometriose do Hospital Nove de Julho, reforça que o longo percurso até o diagnóstico e o tratamento adequado é a regra. Ela resume o padrão em números alarmantes: em média, oito anos de atraso no diagnóstico, quatro cirurgias mal indicadas e dez ginecologistas até um tratamento adequado. “As mulheres são levadas a acreditar que o sofrimento faz parte de ser mulher”, afirma a médica, destacando a importância de reconhecer que funções básicas como comer, evacuar, urinar e ter relação sexual sem dor não devem ser tratadas como sacrifício feminino.

Magalhães faz questão de ressaltar que a endometriose, na imensa maioria dos casos, tem tratamento. Quando a paciente recebe uma abordagem completa – com cirurgia bem executada, acompanhamento multidisciplinar e atenção específica à dor – a qualidade de vida costuma melhorar de forma significativa. Casos em que o sofrimento persiste mesmo após esse cuidado representam “o mínimo do mínimo”, o que torna a situação de Melisa ainda mais rara e complexa.

Colômbia: vanguarda na morte digna e o caso de Melisa

A Colômbia é um dos poucos países no mundo que autoriza a eutanásia, sendo um dos mais avançados no tema. O procedimento foi despenalizado em 1997 e regulamentado em 2015. Em 2021, a Corte Constitucional derrubou a exigência de que o paciente estivesse em fase terminal, permitindo que pessoas com doenças graves e incuráveis que causem sofrimento intenso pudessem solicitar o procedimento. Em 2022, o suicídio assistido também foi descriminalizado.

A endometriose é reconhecida no país como doença crônica, progressiva e debilitante pela Lei 2338. Segundo a Associação Colombiana de Endometriose, mais de cem mulheres já teriam pedido eutanásia em razão da doença. No entanto, quando o pedido de Melisa foi analisado por uma junta médica de um hospital de Bogotá, em julho de 2025, o procedimento foi negado, mantendo-a em um limbo de dor e incerteza.

A história de Melisa Gaona é um lembrete contundente da urgência em aprimorar o diagnóstico e tratamento da endometriose, ao mesmo tempo em que provoca reflexões profundas sobre o direito à morte digna e o papel da medicina diante do sofrimento intratável. Para acompanhar os desdobramentos deste caso e outros temas relevantes que moldam a sociedade, continue conectado ao M1 Metrópole, seu portal de informação atualizada e contextualizada.

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