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China e a luta contra a obesidade: rotina rígida em acampamentos de emagrecimento

TL Huang via BBC
TL Huang via BBC

A China, assim como grande parte do mundo, tem enfrentado um aumento significativo nos índices de obesidade entre sua população. Diante desse cenário, uma solução peculiar e controversa tem ganhado força: os acampamentos de emagrecimento, que alguns chegam a descrever como “prisões para obesos”. Esses centros oferecem regimes intensos de exercícios e dietas controladas, prometendo uma transformação rápida, mas levantando sérias questões sobre a saúde física e mental dos participantes.

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram a realidade desses locais: pessoas em ginásios amplos, formando filas para refeições e dormindo em alojamentos coletivos. Longe de serem spas luxuosos, esses acampamentos operam sob uma disciplina quase militar, com regras rigorosas que incluem pesagens obrigatórias duas vezes ao dia, proibição de lanches e sessões exaustivas de atividade física.

A ascensão dos acampamentos de obesidade na China

A proliferação desses centros reflete uma preocupação crescente com a saúde pública no país. Dados oficiais indicam que cerca de 16% dos adultos chineses sofrem de obesidade, um número que, embora possa parecer menor que em outras nações ocidentais, representa milhões de pessoas e um desafio crescente para o sistema de saúde. Estima-se que existam cerca de mil acampamentos de emagrecimento espalhados pela China, cada um oferecendo um pacote que pode custar em torno de US$ 600 (aproximadamente R$ 3 mil) por um mês de estadia, incluindo acomodação, alimentação e treinos diários.

A popularidade desses acampamentos é impulsionada pela busca por uma solução rápida e eficaz para a perda de peso, muitas vezes motivada por pressões sociais e familiares. Em uma cultura onde a imagem e a saúde são frequentemente interligadas, a obesidade pode ser vista com estigma, levando indivíduos a procurar medidas drásticas para se adequar aos padrões.

A experiência de TL Huang: uma rotina de disciplina e privação

A criadora de conteúdo TL Huang compartilhou sua vivência em um desses acampamentos em suas redes sociais e em entrevista ao podcast “What in the World” da BBC News Brasil. Ela descreveu a experiência como “com certeza, se sentiu em uma prisão”. Durante 28 dias, Huang não pôde sair do recinto e teve sua rotina estritamente controlada. Sua motivação para buscar o acampamento veio após engordar cerca de 20 quilos em três anos, um período em que viajou sozinha pela China, perdeu sua rotina e recorreu frequentemente a refeições por delivery. Os comentários de seus familiares também contribuíram para a decisão, fazendo-a sentir que era “hora de promover mudanças”.

A rotina diária era exaustiva. Os dias começavam às 7h30 da manhã com a primeira pesagem. Em seguida, vinham quatro horas de exercícios intensos, que incluíam aulas de spinning, trampolim, treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT) e levantamento de pesos. As refeições eram rigorosamente controladas e balanceadas, com exemplos como quatro ovos cozidos, meio tomate e duas rodelas de pepino no café da manhã, e camarão, verduras no vapor e tofu ou peixe no almoço. Após o jantar, os participantes eram submetidos a mais uma hora de spinning antes da segunda pesagem, às 19h30. Apesar de descrever as instalações como “parecidas com uma prisão”, Huang considerou a experiência eficaz, perdendo seis quilos em sua estadia e sentindo que o regime a “reiniciou completamente”, fornecendo a estrutura de que precisava.

Riscos e alertas de especialistas sobre métodos extremos

Embora a perda de peso de Huang tenha sido significativa, especialistas em nutrição e saúde alertam para os perigos inerentes a regimes tão extremos. Luke Hanna, nutricionista e personal trainer baseado em Londres, no Reino Unido, destaca que a busca por uma perda de peso de um quilo por dia, como alguns acampamentos prometem, “supera em muito o limite considerado seguro, até mesmo para adultos sob supervisão médica”.

A principal preocupação é que a perda de peso acelerada pode resultar em uma diminuição considerável da massa muscular, e não apenas da gordura. Isso é particularmente problemático para jovens e crianças, pois pode “prejudicar o desenvolvimento normal, o que pode afetar a estatura final e a saúde dos ossos”, explica Hanna. Além dos riscos físicos, há um grande potencial para problemas psicológicos, incluindo um aumento significativo no risco de desenvolver transtornos alimentares. A abordagem desses acampamentos, que foca na restrição severa e no exercício excessivo sem abordar as causas subjacentes da obesidade, muitas vezes leva à recuperação rápida do peso perdido assim que os indivíduos retornam à sua vida normal. O Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido, por exemplo, recomenda uma perda de peso gradual e sustentável, entre 500 gramas e 1 quilo por semana.

Apesar dos resultados imediatos que podem ser alcançados, a sustentabilidade e os impactos a longo prazo desses “acampamentos de obesidade” permanecem um ponto de debate. A pressão social e a busca por soluções rápidas para a obesidade globalmente, e na China em particular, continuam a alimentar a demanda por esses centros, mesmo com os alertas dos profissionais de saúde sobre os riscos envolvidos.

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