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As veredas do grande centrão: a reconfiguração do poder e do orçamento no Brasil

1°.fev.25/Folhapress
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A dinâmica política brasileira tem sido, há anos, profundamente moldada pela atuação do Centrão, um bloco parlamentar que, segundo a análise do professor de direito constitucional da USP, Conrado Hübner Mendes, passou por uma significativa metamorfose. Longe de ser apenas um grupo de apoio à governabilidade, o Centrão se consolidou como um controlador estratégico do orçamento público, redefinindo as relações de poder e a própria essência da democracia nacional.

Em seu artigo, Mendes descreve essa evolução como um movimento de um “bloco invertebrado da governabilidade” para uma força que pulveriza o dinheiro público, visando manter seu controle orçamentário independentemente de quem ocupe a Presidência da República. Essa nova configuração, que inclusive ameaça processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o próprio presidente, revela uma audácia e uma capacidade de influência sem precedentes.

A metamorfose do Centrão e seu novo papel

Historicamente, o Centrão funcionava como um pilar de sustentação para o Poder Executivo, garantindo a governabilidade em um sistema de coalizão. Contudo, a análise de Conrado Hübner Mendes aponta para uma transformação profunda. O grupo deixou de ser um mero parceiro para se tornar um ator central na gestão dos recursos do Estado, com um controle quase absoluto sobre a destinação do orçamento.

Essa mudança não é apenas uma questão de influência, mas de poder efetivo. Ao controlar o orçamento, o Centrão dita as prioridades de investimento, muitas vezes em detrimento de políticas públicas universais e de longo prazo. A preocupação principal, segundo Mendes, é a manutenção desse controle, que se traduz em poder político e eleitoral, com vistas a pleitos futuros, como as eleições de 2026.

Operadores-chave e o “parlamentarismo orçamentário”

Nomes como Davi Alcolumbre, Hugo Motta, Arthur Lira e Ciro Nogueira são citados por Mendes como os principais operadores dessa nova dinâmica do Centrão. Sua atuação tem sido marcada por envolvimento em escândalos, como aportes suspeitos de dinheiro de aposentados no Banco Master, mesadas em troca de “Emenda Master” e viagens a paraísos fiscais. Tais episódios, que ganham repercussão na imprensa e nas redes sociais, expõem a face mais controversa do bloco.

A grande obra desse grupo, conforme a análise, são as emendas parlamentares. Elas transformaram o presidencialismo brasileiro em uma espécie de “parlamentarismo orçamentário extorsivo”. Nesse modelo, a separação de poderes é distorcida, e a cidadania encontra dificuldades em eleger representantes que não estejam inseridos nesse esquema de captura de dinheiro estatal, criando um “voto censitário invertido” onde o acesso aos recursos públicos se torna um fator determinante para a reeleição.

A opacidade financeira e o desafio à fiscalização

A arquitetura financeira criada pelo Centrão é, por design, opaca e difícil de fiscalizar. Mendes detalha como a “hidráulica financeira” irriga bases eleitorais para garantir a reeleição, desviando recursos e capacidade de planejamento de áreas essenciais como saúde e educação. O dinheiro, em vez de financiar políticas públicas estruturantes, é direcionado para a compra de tratores e o financiamento de ONGs aliadas, que funcionam como instrumentos disfarçados de financiamento de campanha, complementando o fundo eleitoral.

As tentativas do STF de controlar essa desordem, iniciadas sob a liderança da ministra Rosa Weber, têm esbarrado em “engenhosas formas de desobediência parlamentar a decisões judiciais”, muitas vezes mascaradas por jargões tecnocráticos. Essa situação expõe a fragilidade do Judiciário diante de um Legislativo que, em certos momentos, parece “latir sem poder morder”, conforme a metáfora utilizada no artigo.

Impacto nas políticas públicas e na promessa constitucional

O resultado dessa dinâmica é que parlamentares se tornaram, na prática, gestores de políticas públicas paroquiais. O dinheiro arrecadado em impostos faz uma “travessia” nebulosa até chegar às prefeituras aliadas, tornando o rastreamento e a fiscalização quase impossíveis. Conrado Hübner Mendes ressalta que esse “localismo” nada tem a ver com a competência municipal de promover o “interesse local” prevista no artigo 30 da Constituição, mas sim com o interesse reeleitoral.

O Centrão, em sua essência, nunca abraçou o projeto constitucional de promoção de direitos e igualdade. Em vez de buscar mudanças na Constituição, concentra seus esforços em parasitar o financiamento do Estado. Como direitos e igualdade dependem diretamente do orçamento, sua captura pelo Centrão esvazia a promessa constitucional, mantendo-a apenas no papel, o que, paradoxalmente, “alimenta a esperança” sem concretizar as transformações necessárias.

A complexidade e a ubiquidade do Centrão na política brasileira, como bem antecipou Guimarães Rosa há 70 anos, indicam que ele está “em toda a parte” e “dentro da gente”, um reflexo das intrincadas relações de poder que moldam o destino do país. Para entender mais sobre os desdobramentos dessa e de outras análises aprofundadas sobre o cenário político nacional, continue acompanhando o M1 Metrópole, seu portal de informação relevante, atual e contextualizada, comprometido com a qualidade do jornalismo.

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