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Catolicismo tradicional: movimento ultraconservador desafia Papa e expande missa em latim no Brasil

cerca de uma hora, os olhos voltados para o Jesus crucificado, as flores e os ca
Reprodução G1

Em um cenário que contrasta fortemente com as celebrações católicas contemporâneas, um movimento ultraconservador ganha força no Brasil, desafiando abertamente as reformas modernizantes do Vaticano. A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), uma congregação que se recusa a aceitar as mudanças do Concílio Vaticano II, celebra missas em latim, com o padre de costas para os fiéis, e se prepara para um novo embate com a Santa Sé ao planejar a nomeação de bispos sem autorização papal.

A cena se repetiu no último domingo de Pentecostes, em uma pequena capela da FSSPX na Vila Mariana, em São Paulo. O silêncio solene foi quebrado pelo som de sinos e o aroma intenso de incenso, anunciando o início da missa das 9h. O padre, acompanhado de diáconos, adentrou o corredor principal balançando um turíbulo, recitando preces melodiosas em latim. Por cerca de uma hora, ele permaneceu de frente para o altar, com os olhos fixos no crucifixo, flores e castiçais, enquanto a capela estava lotada, com fiéis de pé nas laterais e escadas, muitos deles acompanhando as rezas em latim sem a necessidade dos livretos de tradução.

A Missa Tridentina e o Desafio ao Vaticano

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X é um dos grupos que mantêm a tradição da missa tridentina, um rito anterior ao Concílio Vaticano II. Essa forma de celebração se caracteriza pelo uso exclusivo do latim, pelo padre que reza de costas para a congregação na maior parte do tempo, e por uma liturgia mais formal e solene. As vestes do clero são predominantemente vermelhas e douradas, enquanto as mulheres e meninas da congregação vestem saias e vestidos longos, cobrindo os cabelos com lenços de renda, um reflexo da adesão a costumes mais antigos da Igreja.

Fundada em 1970 na Suíça pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, a FSSPX nasceu como uma reação às reformas do Concílio Vaticano II. Em 1988, Lefebvre foi excomungado pelo Papa João Paulo II após nomear quatro novos bispos sem a devida autorização papal, um ato considerado uma grave ruptura com a Santa Sé. Apesar da punição, que proíbe a participação em sacramentos e ritos católicos, a congregação não apenas sobreviveu, mas se expandiu internacionalmente, chegando à América do Sul pela Argentina e, nas últimas duas décadas, ganhando terreno no Brasil.

As Raízes do Confronto: O Concílio Vaticano II

A origem do conflito entre a FSSPX e o Vaticano reside nas profundas mudanças implementadas pelo Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965. Essa assembleia de bispos promoveu a maior reforma da história moderna da Igreja Católica, alterando significativamente a forma de celebrar a missa e a relação da Igreja com o mundo.

Antes do concílio, o latim era a única língua litúrgica, e a interpretação da Bíblia era restrita à hierarquia eclesiástica. As reformas permitiram o uso do idioma local em cada paróquia, incentivaram a leitura e estudo da Bíblia pelos leigos e abriram a Igreja ao diálogo com outras religiões e à liberdade de consciência, ou seja, a ideia de que a fé é uma escolha individual. Essas mudanças progressistas desagradaram a ala mais conservadora do catolicismo, que via nelas uma ruptura com a tradição milenar da Igreja. O historiador Vinícius Couzzi Mérida, mestre e doutor em Ciências da Religião, destaca que muitos padres e seminaristas da época interpretaram as reformas como o nascimento de uma “outra igreja, mais progressista, alinhada ao mundo moderno”, gerando grande confusão e levando mais de 40 mil padres a deixarem o sacerdócio.

Expansão no Brasil e a Reconciliação Frustrada

A chegada e o crescimento da Fraternidade Sacerdotal São Pio X no Brasil estão intrinsecamente ligados à história da Diocese de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Assim como a FSSPX, a Diocese de Campos também rejeitava o Concílio Vaticano II e celebrava a missa tridentina. Inclusive, Dom Antônio de Castro Mayer, um dos bispos da diocese, foi excomungado junto com Marcel Lefebvre em 1988 por participar da ordenação dos bispos da Fraternidade.

No entanto, em 2002, a Diocese de Campos se reconciliou com o Vaticano, aceitando a proposta do Papa João Paulo II de continuar celebrando a missa tridentina, desde que aceitasse o Concílio Vaticano II. Essa reconciliação foi vista como uma traição pelos antigos aliados da FSSPX. Um grupo de fiéis que desaprovou a decisão da diocese pediu então que a Fraternidade passasse a atuar no Brasil. Atualmente, a FSSPX está presente em 14 capelas em quatro das cinco regiões do país, com exceção do Norte, em cidades como São Paulo, Curitiba, Cuiabá e Fortaleza. O historiador Mérida ressalta que se trata de um movimento crescente, com cerca de um milhão de fiéis e 700 padres em todo o mundo, além de grupos dissidentes que continuam a se multiplicar.

Novas Sagrações e o Risco de Ruptura

A expansão da FSSPX reacende a tensão com o Vaticano. A congregação planeja nomear novos bispos em 1º de julho, na cidade suíça de Écône, sem a autorização papal. A Santa Sé já alertou que essas sagrações serão interpretadas como uma ruptura formal com a Igreja e que os envolvidos serão novamente punidos com excomunhão, um evento raríssimo na história católica, segundo Mérida.

A postura do Vaticano, agora sob o papado de Leão XIV, parece irredutível, exigindo a aceitação do Concílio Vaticano II para qualquer reconciliação. Como a Fraternidade Sacerdotal São Pio X também não demonstra sinais de recuo, é provável que os bispos, sacerdotes e os futuros bispos sagrados sejam excomungados. Este impasse demonstra o choque contínuo entre a tradição e a modernidade dentro do catolicismo, com repercussões significativas para a unidade da Igreja.

Influência e Ideologia: Além dos Ritos

Embora o número de fiéis da FSSPX seja relativamente pequeno em comparação com os 1,4 bilhão de católicos globalmente, o movimento é representativo do avanço do catolicismo tradicional. Muitos desses grupos, mesmo que pequenos, são bastante ativos nas redes sociais e influenciam o debate público em torno de pautas conservadoras.

A ideologia da FSSPX e de grupos similares se reflete também nos materiais vendidos em suas capelas. Na livraria da capela da Vila Mariana, por exemplo, foram encontrados livros como

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