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“Casamento destino” impulsiona turismo em paraísos litorâneos brasileiros

“Casamento destino” impulsiona turismo em paraísos litorâneos brasileiros
Gabriel Ribeiro / Acervo pessoal

Gabriel Ribeiro / Acervo pessoal

Os pés na areia, o som das ondas e um pôr do sol que pinta o céu de laranja. Esse cenário, antes reservado às férias, tem se tornado o pano de fundo para um número crescente de casamentos no Brasil. O fenômeno do “casamento destino” não apenas realiza o sonho de muitos casais, mas também se consolida como um motor econômico vital para destinos paradisíacos em todo o litoral brasileiro.

Em locais como São Miguel dos Milagres, no litoral norte de Alagoas, o que era um antigo vilarejo de pescadores transformou-se em um dos principais polos para a celebração de matrimônios. Estimativas de empreendedores locais indicam que a região sedia entre 60 e 70 cerimônias por ano, movimentando uma complexa cadeia de serviços e impulsionando o turismo de forma significativa.

O fenômeno do “casamento destino” no Brasil

O conceito de “casamento destino” envolve a escolha de um local distante da residência dos noivos para a realização da cerimônia e festa, transformando o evento em uma experiência de viagem para os convidados. No Brasil, a vasta e deslumbrante costa oferece uma infinidade de opções que atraem casais em busca de algo mais do que um salão tradicional.

A popularidade desses eventos cresceu exponencialmente nos últimos anos, especialmente após a pandemia de COVID-19. Muitos casais passaram a buscar cerimônias mais íntimas e “enxutas”, valorizando praias menos movimentadas, hospedagens menores e uma conexão mais profunda com a natureza, em vez dos grandes centros urbanos.

Impacto econômico e a virada pós-pandemia

O impacto do “casamento destino” vai muito além do dia da festa. Em São Miguel dos Milagres, por exemplo, os convidados frequentemente chegam dois ou três dias antes e prolongam sua estadia após a celebração. Essa permanência estendida garante hotéis menores lotados, restaurantes com grupos fechados e uma demanda constante por fornecedores locais.

Empresas de decoração, fotografia, música e gastronomia circulam com frequência crescente pela chamada Rota Ecológica dos Milagres. Mamá Omena, da Mamá Eventos, empresa especializada em cerimoniais na região, observa que os visitantes aproveitam para fazer passeios e acabam conhecendo e se encantando com o local, o que muitas vezes os leva a decidir se casar ali também.

Esse foi o caso da arquiteta Maria Vitória Romeiro, 27, e do empresário Lucas Romeiro, 30, de Niterói. Eles escolheram Milagres para o seu casamento após uma viagem de Réveillon, e a experiência foi tão marcante que já planejam retornar para celebrar futuras bodas. A cidade, segundo Maria Vitória, “passou a fazer parte da nossa história”, evidenciando a forte conexão emocional que esses destinos criam.

Luxo discreto e a busca por autenticidade

A professora de consumo de luxo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Mariana Cerone, explica que lugares relativamente isolados ganharam força entre consumidores de alta renda porque as experiências se tornaram importantes marcadores sociais. A busca não é pela ostentação explícita, mas pela sensação de exclusividade, privacidade e atendimento altamente personalizado.

A estética desses eventos reflete essa mudança, trocando a exuberância visual por elementos que remetem à naturalidade e à integração com a paisagem. Cerone descreve essa tendência como uma “simplicidade do jeito que o rico gosta”, ou seja, um estilo que, embora pareça simples, é “altamente produzido” e sofisticado em sua execução.

Expansão imobiliária e a concorrência global

Além de movimentar a cadeia de serviços, o turismo de casamentos impulsionou o mercado imobiliário em São Miguel dos Milagres e arredores. Pousadas menores, hotéis de charme e empreendimentos voltados para segundas residências se multiplicaram, visando atrair esse público que se encanta com o local e busca uma permanência mais longa.

Maurício Vasconcelos, sócio da incorporadora Taipa Inc., que desenvolve o Bossa Eco Luxury Villas, um projeto focado em estadias prolongadas, resume a competitividade do destino: “Quem decide casar em Milagres pode casar em qualquer lugar do mundo”. Essa frase sublinha como a região passou a disputar um público acostumado a viagens internacionais e experiências sob medida, atraindo inclusive celebridades como Bruna Marquezine e Sasha Meneghel.

Outros refúgios de celebração pelo litoral

O fenômeno não se restringe ao litoral alagoano. Em Barra de São Miguel, também em Alagoas, o Kenoa Exclusive Beach Spa & Resort, com suas 23 acomodações à beira-mar, tornou-se um ponto de referência para casamentos intimistas. Segundo Emanuel Pereira, coordenador comercial do Kenoa, há uma forte busca por autenticidade, exclusividade e conexão com o lugar.

No Ceará, a uma hora e meia de Fortaleza, o Saline Boutique Hotel especializou-se em pequenos casamentos, realizando cerca de 12 cerimônias por ano. Para quem deseja fechar o local para convidados, o “buyout” deve ser agendado com pelo menos oito meses de antecedência, demonstrando a alta demanda.

Já na Bahia, a Ilha dos Frades, a poucos minutos de barco de Salvador, abriga o Cerimonial Loreto, uma igrejinha histórica com vista para o mar. O aluguel do espaço varia de R$ 40 mil a R$ 95 mil, e o orçamento total de uma festa pode chegar a milhões, dependendo dos serviços. Ainda assim, a fila de espera para se casar ali ultrapassa um ano, confirmando o apelo desses destinos únicos. O Ministério do Turismo tem incentivado o desenvolvimento de infraestrutura para atender a essa demanda crescente.

O “casamento destino” representa, portanto, uma tendência consolidada que não só oferece experiências memoráveis aos casais, mas também injeta vitalidade econômica em comunidades litorâneas, redefinindo o conceito de luxo e celebração no cenário turístico brasileiro.

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