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Campanha oculta: R$ 1,3 milhão em anúncios anônimos ataca Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas nas redes

Biblioteca de Anúncios da Meta
Biblioteca de Anúncios da Meta

A transparência nas campanhas eleitorais e a regulação da publicidade política nas redes sociais voltam ao centro do debate com a revelação de uma vultosa campanha de anúncios anônimos. Plataformas como Instagram e Facebook, ambas da Meta, foram palco de um investimento de quase R$ 1,3 milhão em publicações que atacavam figuras políticas proeminentes como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), enquanto promoviam o pré-candidato ao Governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT). A descoberta levanta sérias preocupações sobre a integridade do processo eleitoral e a capacidade de fiscalização em um ambiente digital cada vez mais complexo.

A Mecânica da Campanha Oculta e os Valores Milionários

A investigação, inicialmente reportada pelo jornal O Globo e confirmada pela Folha de S.Paulo, detalhou como sete perfis com poucos seguidores – nenhum deles superando 400 – operaram uma campanha coordenada e financeiramente robusta. Nos últimos 90 dias, o montante total gasto por essas páginas atingiu a cifra de R$ 1.299.214, conforme dados disponibilizados pela própria Meta. Esse volume de investimento, desproporcional ao alcance orgânico dos perfis, indica uma estratégia de impulsionamento massivo para disseminar conteúdo político.

Os perfis em questão – Radar do Planalto, Dossier Brasil 24H, O Contra-Fluxo, Panorama Brasil, Olho no Erro, Contra a Maré e Lente Escura – compartilhavam características que sugerem uma ação orquestrada. Entre elas, o uso de frases genéricas nas postagens que acompanhavam vídeos de ataque ou defesa, uma tática que poderia ser empregada para driblar os mecanismos de controle das plataformas sobre temas políticos. Além disso, as datas de registro das informações dos anunciantes na Meta eram bastante próximas, concentradas em 22 ou 23 de abril, e 3 ou 8 de junho, reforçando a hipótese de coordenação.

Perfis Fantasma e a Violação da Legislação Eleitoral

A principal irregularidade apontada por especialistas é a ausência de identificação dos responsáveis por essas páginas. A legislação eleitoral brasileira exige transparência na publicidade política, com a clara identificação de quem financia e veicula os anúncios. A falta dessa informação impede a fiscalização e abre brechas para a disseminação de desinformação e ataques sem que os autores sejam responsabilizados. Muitos dos perfis estavam ligados a websites sem conteúdo real, escritos em espanhol e criados em datas próximas, e já foram retirados do ar.

A estratégia de pulverizar anúncios com orçamentos menores também é um indicativo de tentativa de contornar as regras. Ao invés de um grande investimento em uma única campanha facilmente rastreável, a fragmentação em inúmeras postagens de baixo custo dificulta o monitoramento e a identificação do padrão. A predominância de números de telefone com DDD 41 (Paraná), com exceção de um com DDD 83 (Paraíba), também levanta questões sobre a origem e a coordenação geográfica dessa campanha oculta.

O Conteúdo dos Ataques e a Defesa de Candidatos

Os anúncios impulsionados tinham como alvo principal Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Um exemplo notório do Radar do Planalto foi um vídeo intitulado “Flávio Bolsonaro gosta de ter milicianos e assassinos ao seu redor”, que compilava trechos de notícias relacionando o senador ao ex-policial militar Adriano da Nóbrega. Este anúncio, com um gasto de cerca de R$ 3.000, alcançou entre 500 mil e 600 mil impressões, evidenciando o potencial de alcance dessas mensagens.

Outros perfis, como o Contra a Maré, direcionaram ataques a Tarcísio de Freitas, com vídeos como “Conheça o traidor de Freitas”, ao mesmo tempo em que promoviam Fernando Haddad, destacando, por exemplo, que o petista “quer zerar impostos de medicamentos”. Essa dualidade na estratégia – atacar adversários e promover um candidato específico – é um traço comum em campanhas políticas, mas a execução anônima e milionária é o que a torna problemática.

O Papel das Plataformas e a Transparência Necessária

A Meta, empresa responsável pelas redes sociais onde os anúncios foram veiculados, não se manifestou sobre os detalhes específicos da investigação. No entanto, a existência de tais campanhas sublinha o desafio contínuo das plataformas em garantir a transparência e coibir a desinformação e a manipulação política. A capacidade de páginas com poucos seguidores de investir somas tão altas em publicidade sem identificação clara de seus financiadores representa uma falha nos sistemas de controle e fiscalização.

A proximidade das eleições de 2026 torna a questão ainda mais urgente. A veiculação de anúncios políticos sem identificação clara do anunciante distorce o debate público, impede que os eleitores saibam quem está por trás das mensagens que consomem e mina a confiança no processo democrático. É fundamental que as plataformas digitais aprimorem seus mecanismos de transparência e que as autoridades eleitorais intensifiquem a fiscalização para garantir um ambiente eleitoral justo e equitativo.

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