Em um gesto de preservação da memória e resistência, um grupo de cerca de 50 pessoas percorreu, no último domingo (30), o trajeto que marcou a despedida de um dos maiores nomes da história brasileira. A caminhada, que ocorre anualmente desde 2013, refaz o caminho do cortejo fúnebre de Luiz Gama, o advogado e abolicionista que, mesmo após 144 anos de sua morte, permanece como um símbolo central da luta por justiça e liberdade no Brasil.
Um legado que atravessa gerações
Luiz Gama, que faleceu em 24 de agosto de 1882, foi uma figura singular no século 19. Nascido na Bahia e vendido ilegalmente como escravizado pelo próprio pai, ele conquistou sua liberdade, tornou-se autodidata e utilizou o Direito como arma para libertar mais de 500 pessoas da escravidão. Sua morte, causada por complicações de uma diabetes, gerou uma comoção pública sem precedentes na capital paulista, reunindo cerca de três mil pessoas em seu funeral — um número expressivo que representava 10% da população de São Paulo na época.
A caminhada atual busca evocar o peso daquele momento histórico. Partindo do Brás, onde o abolicionista residia, o grupo percorreu pontos nevrálgicos do centro da cidade, como a praça da Sé e o Fórum João Mendes. O trajeto culminou no cemitério da Consolação, onde repousam os restos mortais de Gama. Segundo Abílio Ferreira, coordenador da Sociedade Luiz Gama, a iniciativa é uma forma de sentir a dimensão da gratidão que a população da época nutria pelo advogado.
A memória viva nos documentos
O evento também serviu como palco para a divulgação de novas descobertas sobre a trajetória do abolicionista. O historiador Bruno Rodrigues de Lima, pesquisador do Instituto Max Planck e autor de obras sobre Gama, aproveitou a ocasião para o lançamento do quinto volume das “Obras Completas” do advogado, intitulado África-Brasil. O livro compila textos sobre a relação de Gama com africanos livres e escravizados, enriquecendo o debate sobre a atuação jurídica e intelectual da figura.
Entre as descobertas recentes, destaca-se o “Livro dos Africanos Emancipados”, um catálogo manuscrito de 1864 encontrado por Lima no Arquivo Público de São Paulo. O documento contém perfis de 124 pessoas, redigidos por Gama durante seu período como escrivão de polícia. Essas descobertas, somadas à revelação de suas origens familiares detalhadas no livro Pai contra mãe, reforçam a importância de manter viva a pesquisa acadêmica sobre o período escravocrata brasileiro.
O simbolismo do juramento
Ao chegar ao túmulo de Luiz Gama, os participantes realizaram um juramento, reafirmando o compromisso com as ideias do abolicionista, que sonhava com um país “sem reis e escravos”. O ato remete diretamente ao juramento feito pelos presentes no dia do sepultamento, em 1882, conforme narrado pelo escritor Raul Pompeia em sua crônica histórica na Gazeta de Notícias.
A relevância de Luiz Gama para o Brasil contemporâneo é inegável. Como advogado, ele enfrentou as famílias mais influentes do Estado, denunciando torturas e violências, e estabeleceu um padrão de excelência jurídica que ainda hoje é estudado. Para o ator e dramaturgo Max Lu, que participou da caminhada, o exercício de refazer o caminho é uma forma de se aproximar da “força heroica” de um homem que dedicou sua vida a combater a desumanização.
Para continuar acompanhando reportagens sobre história, cultura e os principais acontecimentos que moldam a sociedade brasileira, siga o M1 Metrópole. Nosso compromisso é levar até você uma cobertura aprofundada, contextualizada e pautada pelo rigor jornalístico.