A relação entre ciência e política no Brasil tem sido marcada por complexas dinâmicas, especialmente no contexto do bolsonarismo. Uma análise aprofundada revela como a confiança na pesquisa científica se entrelaça com o alinhamento político, gerando percepções distintas sobre temas cruciais como meio ambiente, saúde pública e o próprio papel dos cientistas na sociedade.
Em 2019, uma pesquisa com jovens brasileiros já indicava um paradoxo: embora o meio ambiente (80%), saúde (74%) e ciência/tecnologia (67%) fossem temas de grande interesse, uma parcela significativa (54%) considerava que cientistas poderiam estar “exagerando” sobre as mudanças climáticas. Essa desconfiança, conforme apontado por Bruno Gualano, professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP, é um reflexo de como a posição política influencia a percepção da credibilidade científica.
Percepção da ciência e alinhamento político
Estudos internacionais corroboram essa tendência. Um levantamento com 4.262 britânicos mostrou que, embora 63% confiem nos cientistas, a identificação com o público leigo (“do lado de pessoas como eu”) pesa mais do que a percepção de competência. A influência política é evidente: 71% dos eleitores do Partido Verde sentem que os cientistas estão ao seu lado, enquanto apenas 32% dos eleitores do Reform UK, da direita radical, compartilham dessa visão. O padrão observado é que a confiança tende a ser maior quando a ciência valida as próprias convicções.
No Brasil, essa polarização é ainda mais acentuada. Em um estudo global com 72 mil pessoas de 68 países, o Brasil ficou em 21º lugar no ranking de confiança nos cientistas. Contudo, a pesquisa revelou que, quanto mais à direita o entrevistado, menor a confiança de que os cientistas agem por interesse público. Essa queda na confiança foi a mais expressiva entre todos os países analisados, sublinhando uma profunda divisão ideológica em relação ao conhecimento científico.
A ‘ciência patriótica’ e a visão bolsonarista
Sociólogos que estudaram grupos bolsonaristas no Telegram identificaram um fenômeno ainda mais complexo do que a simples rejeição à ciência: a emergência de uma “ciência patriótica”. Essa vertente, que propõe médicos e estudos próprios, posiciona-se em oposição à ciência “mainstream”, frequentemente rotulada como corrompida. Nesse cenário, a questão não é rejeitar o cientista, mas disputar quem detém a legitimidade para ser considerado um especialista. Essa abordagem, que busca moldar a ciência para se adequar a narrativas políticas, tem implicações sérias para a formulação de políticas públicas e a saúde coletiva.
Impacto na saúde pública: o caso da COVID-19
A adoção de uma “ciência sob medida” teve um custo humano elevado, especialmente durante a pandemia de COVID-19. Uma pesquisa de 2020 com 2.771 brasileiros revelou que apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro apresentavam menor conhecimento sobre o coronavírus e se mostravam menos preocupados com a pandemia em comparação com seus opositores. Em nível municipal, observou-se que quanto maior o voto em Bolsonaro, menores foram a cobertura vacinal e a adesão ao distanciamento social, resultando em uma maior mortalidade.
Estimativas apresentadas à CPI da Covid atribuíram ao atraso na compra de vacinas um número alarmante de mortes evitáveis, variando entre 95 mil e 145 mil. Esse período evidenciou como a desinformação e a desconfiança na ciência puderam se traduzir em consequências trágicas para a população brasileira, reforçando a importância de uma comunicação científica clara e baseada em evidências.
Flávio Bolsonaro e a negação científica
A postura de figuras políticas ligadas ao bolsonarismo exemplifica essa peculiar visão da ciência. Em 2020, o senador Flávio Bolsonaro divulgou uma foto falsa para alegar a cura da COVID-19 pela cloroquina, uma droga sem eficácia comprovada. Questionado, ele afirmou que a droga funcionava “na maioria esmagadora dos casos”, contrariando o consenso médico. Em meio à escalada de mortes, apoiou a campanha “O Brasil não pode parar”, que pregava o fim do isolamento social. Após ser infectado, atribuiu sua recuperação a um “tratamento precoce” sem validação clínica. A CPI da Covid recomendou seu indiciamento por incitação ao crime, destacando a gravidade de suas ações.
A negação científica de Flávio Bolsonaro persiste em outros temas. Em agosto, em entrevista ao Jornal Nacional, ao ser lembrado de um artigo de 2019 em que minimizava o aquecimento global, ele defendeu a ideia de “épocas cíclicas” e que os extremos climáticos não teriam relação “só com a influência do ser humano”. Essa visão contraria o consenso científico esmagador: uma revisão de 88.125 artigos científicos, por exemplo, demonstrou que o consenso sobre a causa humana das mudanças climáticas supera 99,9% em estudos publicados.
O futuro do financiamento científico e a visão bolsonarista
A visão bolsonarista também se estende à política de financiamento da ciência. Flávio Bolsonaro defende a concessão de bolsas para áreas como “tecnologia, inovação, inteligência artificial”, argumentando que o dinheiro público não deve ser direcionado a áreas que, em sua percepção, “não agregam nada ao país”. Seu programa propõe retirar as universidades federais do MEC e condicionar agências de fomento como Capes e CNPq ao “impacto produtivo”, reduzindo a ciência a um instrumento de conveniência e utilidade imediata. Essa abordagem pode comprometer a pesquisa básica e a autonomia acadêmica, essenciais para o avanço do conhecimento em diversas frentes.
A polarização em torno da ciência, portanto, não é apenas um debate acadêmico, mas uma questão com profundas ramificações sociais, econômicas e políticas. Compreender essa dinâmica é fundamental para o futuro do Brasil e para a capacidade do país de enfrentar desafios complexos com base em evidências e conhecimento.
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