
Cada era encontra no cinema de horror um espelho para suas inquietações mais profundas. Se nos anos 1950 o medo da infiltração comunista pulsava em “Invasão dos Usurpadores de Corpos”, e a desconfiança institucional dos anos 1970 assombrava clássicos como “O Massacre da Serra Elétrica”, a Geração Z agora se vê refletida em “Backrooms”. O filme, que rapidamente se tornou um fenômeno de bilheteria, oferece um mergulho perturbador nas ansiedades de uma geração que cresceu com a realidade mediada por telas, o futuro incerto do trabalho e a ascensão da inteligência artificial.
A produção, que arrecadou US$ 81 milhões em seu fim de semana de estreia apenas nos Estados Unidos, atraiu predominantemente um público jovem: cerca de 86% dos espectadores tinham menos de 35 anos, e 44%, menos de 21, segundo a empresa de pesquisa PostTrak. Este sucesso estrondoso não é apenas um feito comercial, mas um indicativo de como a narrativa do filme ressoa com os pesadelos contemporâneos de uma juventude imersa em um universo digital e em constante mutação.
A estética do liminar e a vida online
“Backrooms” transporta o público para uma dimensão estranha de quartos quase vazios, um labirinto infinito e mutante que reflete o profundo desconforto da Geração Z com uma vida vivida predominantemente online. O filme é a estreia nas telas grandes de uma obsessão que permeia a cultura da internet, especialmente entre os jovens que cresceram fascinados por imagens da virada do milênio, como shoppings abandonados e espaços liminares – locais de transição que evocam uma sensação de estranheza e familiaridade ao mesmo tempo.
O diretor Kane Parsons, com apenas 20 anos, é um verdadeiro “filho da internet”. Seu estilo, forjado por mídias digitais e videogames, confere autenticidade à obra. Em 2022, Parsons transformou a imagem de um meme inquietante de um escritório dos anos 2000 em um curta-metragem, “The Backrooms (Found Footage)”, que acumulou mais de 80 milhões de visualizações. O sucesso viral chamou a atenção da A24, produtora conhecida por seu cinema indie refinado, que o contratou para dirigir a versão longa-metragem. Brendan Reynolds, de 26 anos, funcionário da Biblioteca Pública de Nova York, destacou que o filme é a obra de alguém com uma experiência geracional comum, sendo o “primeiro filme que vi dirigido por alguém que cresceu com vaporwave”, um gênero musical online do início dos anos 2010.
Inteligência artificial e o futuro do trabalho
No enredo, o arquiteto frustrado Clark, que se tornou vendedor de móveis, tropeça em um portal para os Backrooms sob sua loja. As combinações estranhas e circulares de espaços de escritório que ele encontra sugerem uma espécie de “algoritmo demente”. Essa representação tem levado muitos espectadores a ler o filme como um comentário sobre a inteligência artificial e a proliferação de conteúdo perturbador gerado online, um tema que assusta profundamente a Geração Z.
Sydney Andrews, designer de produção de 23 anos em Nova York, expressa essa apreensão: “Acho que as pessoas estão se sentindo muito perdidas hoje. Nossa geração está muito assustada com a IA.” O próprio Parsons não esconde sua preocupação, afirmando que a IA é “genuinamente prejudicial” e que, se pudesse, faria a IA generativa “desaparecer para sempre”. Suas inspirações, no entanto, vêm do universo dos games, como “Portal 2” e “Minecraft”, e a entrada na zona liminar do filme se dá por “clipping”, gíria gamer para atravessar uma parede sólida, reforçando a conexão com a cultura digital.
A fusão entre casa e trabalho: um pesadelo geracional
A ideia de estar preso em um labirinto em proliferação ressoa com uma audiência que passou anos confinada em casa durante a pandemia de Covid-19, experimentando o mundo exterior através de espessas camadas de mediação digital. Para a Geração Z, a vida online, embora ofereça distração, também transformou o trabalho digital – a criação de conteúdo sendo o exemplo mais óbvio – em um campo darwiniano que exige dedicação total e, por vezes, é a única perspectiva de emprego imaginável.
Adam Lowenstein, diretor do Centro de Estudos de Horror da Universidade de Pittsburgh, observa que “é uma geração para quem o próprio trabalho é uma perspectiva muito desconcertante, perturbadora e assustadora”. Em “Backrooms”, essa ansiedade é palpável: trabalho e casa estão irremediavelmente entrelaçados. Clark dorme no chão da loja, e os próprios Backrooms, embora lembrem escritórios, estão repletos de decoração de casa, móveis de jardim e roupa suja, simbolizando a dissolução das fronteiras entre o pessoal e o profissional. A visão do filme sobre os jovens no trabalho é igualmente perturbadora, com funcionários que parecem não ter sonhos, aceitando trabalhos por hora como produtores de conteúdo ou assistentes em uma missão sem propósito claro.
O sucesso de “Backrooms” e sua ressonância com a Geração Z são um lembrete de como a arte, especialmente o horror, continua a ser um termômetro cultural. O filme não apenas entretém, mas provoca reflexão sobre as complexas relações que estabelecemos com a tecnologia, o trabalho e a própria realidade em um mundo cada vez mais digitalizado. Para aprofundar-se em outras análises sobre cultura e sociedade, continue acompanhando o M1 Metrópole, seu portal de notícias que oferece informação relevante, atual e contextualizada sobre os mais variados temas. Saiba mais sobre o filme e suas repercussões.