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Apps de dopamina: por que cresce a tendência de fazer compras falsas na internet

Apps de dopamina: por que cresce a tendência de fazer compras falsas na internet
Reprodução Folha

Em um cenário digital onde a atenção é a moeda mais valiosa, uma nova tendência tem chamado a atenção de especialistas em comportamento do consumidor: os chamados aplicativos de dopamina. Plataformas como o FoodNeverComes ou o Dopamine Shop permitem que usuários simulem pedidos de comida, encham carrinhos de compras virtuais com itens luxuosos ou até mesmo simulem o hábito de fumar, tudo sem que qualquer transação real ocorra ou que um produto seja entregue. O que parece uma brincadeira inofensiva esconde, na verdade, um mecanismo psicológico poderoso e uma estratégia de coleta de dados que merece cautela.

O mecanismo cerebral por trás da simulação

A dopamina é um neurotransmissor fundamental para o sistema de recompensa do cérebro humano. Ela atua não apenas no prazer imediato, mas principalmente na motivação e na antecipação de objetivos. Quando um usuário navega por um aplicativo de delivery, escolhe pratos e acompanha o status de um pedido, o cérebro antecipa a recompensa. Nos aplicativos de dopamina, o ciclo é interrompido apenas no momento do consumo final. O usuário obtém a satisfação de buscar, escolher e “adquirir”, mantendo o cérebro em um estado de engajamento constante sem o custo financeiro ou o acúmulo de bens materiais.

Riscos ocultos e a economia dos dados

Embora o acesso a essas plataformas seja frequentemente gratuito, o custo real é pago com informações. Ao interagir com esses simuladores, o usuário fornece um mapa detalhado de seus desejos, preferências e hábitos de consumo. Esses dados são valiosos para anunciantes terceiros, que utilizam o histórico de navegação para exibir anúncios altamente segmentados em outros ambientes digitais. É comum que, após “comprar” uma jaqueta de luxo em um site falso, o usuário comece a ser impactado por anúncios reais do mesmo produto em redes sociais e buscadores, como o Google.

A gamificação como porta de entrada para hábitos reais

A preocupação de especialistas, como o professor Gary Mortimer, da Queensland University of Technology, reside na possibilidade de esses aplicativos servirem como “comportamentos de entrada”. Estudos anteriores sobre jogos de azar simulados mostram uma correlação preocupante: usuários que se acostumam com a mecânica de apostas em ambientes sem dinheiro real apresentam maior probabilidade de migrar para plataformas de apostas com dinheiro verdadeiro no futuro. A gamificação, ao reduzir a barreira psicológica entre o desejo e a ação, pode tornar o cérebro mais suscetível a comportamentos de consumo compulsivo na vida real.

O fenômeno além das telas

A busca por essa sensação de bem-estar através da simulação não é um fenômeno novo, mas foi potencializada pela tecnologia. Antes dos aplicativos dedicados, comportamentos semelhantes já ocorriam em plataformas como o Pinterest, onde usuários criam painéis de “casas dos sonhos” ou roteiros de viagens que nunca sairão do papel. A diferença atual é a escala e a precisão com que a indústria coleta esses dados. O que antes era uma atividade introspectiva ou de planejamento pessoal tornou-se um ativo comercial, transformando a nossa busca por dopamina em um produto de mercado.

No M1 Metrópole, acompanhamos de perto como as transformações digitais impactam o cotidiano e a saúde mental dos brasileiros. Manter-se informado sobre as nuances do comportamento online é essencial para navegar com segurança em um mundo cada vez mais conectado. Continue acompanhando nossas reportagens para entender os desdobramentos das novas tecnologias em nossa sociedade e receba análises aprofundadas sobre os temas que moldam o seu dia a dia.

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