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Anestesia no parto normal: disparidade quatro vezes maior na rede privada que no SUS

Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

O acesso à anestesia durante o parto vaginal no Brasil revela uma profunda desigualdade, com a oferta do procedimento sendo quatro vezes mais frequente na rede particular de saúde em comparação com o Sistema Único de Saúde (SUS). Dados preliminares de um inquérito nacional apontam que apenas 8,6% das mulheres que dão à luz em hospitais públicos recebem anestesia, enquanto na rede privada esse percentual salta para 32%. A média geral no país é de 11,6% de partos vaginais com analgesia.

Essa realidade, que naturaliza a dor do parto e impacta diretamente a experiência das gestantes, foi evidenciada em casos como o de Evelin Cristina Pereira, 37 anos. Em fevereiro de 2022, em Campo Largo (PR), Evelin, em trabalho de parto de sua primeira filha, estava exausta e delirando de dor. Sua doula solicitou analgesia, mas a médica responsável teria negado o procedimento, alegando não fornecê-lo nem para pacientes de planos de saúde, tampouco para as do SUS. A profissional foi posteriormente condenada por violência obstétrica no final de 2025, e Evelin foi diagnosticada com transtorno do estresse pós-traumático, necessitando de acompanhamento psicológico.

Acesso à anestesia no parto vaginal: a realidade brasileira

Os números que ilustram essa disparidade são provenientes do inquérito Nascer no Brasil 2, conduzido pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. O estudo acompanhou mais de 22 mil mulheres em 395 maternidades por todo o país, e seu relatório completo está previsto para ser publicado em 2027. A baixa disponibilidade de anestesia peridural, tanto na rede pública quanto na privada, é um reflexo de uma cultura que, segundo especialistas, desconsidera a dor da parturiente.

A coordenadora da pesquisa, Maria do Carmo Leal, médica sanitarista e especialista em saúde pública, ressalta a contradição: “Como médicos, nossa função é tirar a dor. Então, somos muito sensíveis às pessoas com dor. Mas quando é uma gestante, perdemos essa sensibilidade”. Essa percepção é corroborada pela vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Parto da Febrasgo, que aponta para a necessidade de uma mudança de paradigma na assistência obstétrica.

Consequências da naturalização da dor e o alto índice de cesarianas

A naturalização da dor no parto vaginal é um dos fatores que contribuem para o elevado índice de cesarianas no Brasil. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as cesarianas representem entre 10% e 15% do total de partos. No entanto, no Brasil, esses números são alarmantes: 47,6% nos hospitais públicos e impressionantes 81,3% nos hospitais privados.

Em gestações de baixo risco, a cesariana sem indicação médica é associada a desfechos menos favoráveis tanto para a mãe quanto para o recém-nascido. Estudos indicam que o procedimento pode triplicar o risco de morte materna e aumentar em cinco vezes a chance de embolia amniótica. O medo da dor é um motivador significativo para a escolha da cesariana, conforme revelado pelo estudo Nascer no Brasil 1, publicado em 2014, onde 46,6% das mulheres citaram esse receio como principal razão para optar pelo método mais invasivo.

O impacto da escolha e a busca por um parto humanizado

A experiência de Evelin, que após ter a analgesia negada, implorou por uma cesariana que também lhe foi recusada, ilustra o desamparo de muitas mulheres. A falta de opções e a imposição de um parto doloroso podem ter consequências psicológicas duradouras, como o transtorno do estresse pós-traumático. A autonomia da mulher e o direito a um parto humanizado, com acesso a métodos de alívio da dor, são pilares fundamentais de uma assistência obstétrica de qualidade.

A discussão sobre a disponibilidade da anestesia não se limita apenas ao alívio da dor física, mas também à garantia de um parto respeitoso e seguro, onde a mulher se sinta acolhida e tenha suas escolhas consideradas. A disparidade observada entre as redes pública e privada evidencia uma falha sistêmica que precisa ser abordada para assegurar que todas as gestantes tenham acesso a um cuidado digno e baseado em evidências.

Iniciativas para mudar o cenário da assistência obstétrica

Diante desse cenário desafiador, iniciativas buscam reverter a situação. Um projeto-piloto da Fiocruz em parceria com a Embaixada da França será implementado em dez maternidades do país. O objetivo é aprimorar a assistência ao parto, incluindo a promoção do acesso à analgesia e a redução das taxas de cesariana desnecessárias. Tais ações são cruciais para alinhar a prática obstétrica brasileira às recomendações internacionais e garantir que o parto seja uma experiência positiva e segura para todas as mulheres.

Acesse mais informações sobre saúde pública e direitos da mulher no site da Fiocruz.

O M1 Metrópole segue acompanhando de perto os desdobramentos e as discussões sobre a saúde da mulher e a qualidade da assistência obstétrica no Brasil. Continue conectado ao nosso portal para ter acesso a informações relevantes, atualizadas e contextualizadas sobre este e outros temas que impactam a vida da nossa sociedade. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, oferecendo uma leitura jornalística aprofundada e diversificada para você.

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