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Amizade de baixa manutenção: a nova dinâmica das relações na vida adulta

Amizade de baixa manutenção: a nova dinâmica das relações na vida adulta
Jardiel Carvalho/Folhapress

A rotina acelerada dos grandes centros urbanos tem imposto novos formatos para as interações sociais. Em um cenário onde o tempo se tornou um recurso escasso, ganha força nas redes sociais o conceito de “amizade de baixa manutenção”. O termo descreve vínculos afetivos que sobrevivem a longos períodos de silêncio ou ausência física, sem que isso signifique o enfraquecimento do laço entre as pessoas. Para muitos, essa modalidade de convivência surge como uma estratégia de sobrevivência frente às demandas profissionais e familiares.

A subjetividade nas expectativas de convivência

Embora o termo seja popular, especialistas ressaltam que não existe uma definição universal para o que constitui uma relação de baixa manutenção. A percepção de proximidade é subjetiva e varia conforme a necessidade de cada indivíduo. Para alguns, a troca esporádica de mensagens ou o compartilhamento de conteúdos digitais é suficiente para manter a conexão ativa. Para outros, o distanciamento prolongado pode ser interpretado como um sinal de desinteresse, gerando frustrações e cobranças.

Segundo Alana Anijar, psicóloga especialista em terapia cognitivo-comportamental, a classificação depende do peso que cada um atribui à manutenção da amizade. “É aquela relação em que não existe o peso da obrigatoriedade do contato constante. Embora não haja tempo para encontros frequentes, o afeto e a conexão permanecem preservados”, explica. A especialista reforça que o sucesso desse modelo depende do alinhamento de expectativas entre os envolvidos, evitando que o silêncio seja lido como abandono.

O risco da superficialidade nas relações modernas

Por outro lado, o uso do termo levanta debates sobre a qualidade das interações contemporâneas. Críticos do conceito apontam que a nomenclatura pode servir como uma justificativa para a negligência afetiva. A psicanalista Ingrid Gerolimich, autora do livro “Para Revolucionar o Amor”, alerta para o risco de transformar o afeto em um produto de consumo, sujeito à lógica do descarte. “Esse nome parece uma expressão do mundo atual, onde tudo é rápido e superficial. Precisamos questionar se não estamos usando essa ideia para evitar o compromisso e a profundidade”, pondera.

Essa visão é compartilhada por parte do público que enxerga na “baixa manutenção” um sintoma da liquidez das relações, conforme definido pelo sociólogo Zygmunt Bauman. O medo de se envolver profundamente e a preguiça de investir tempo na construção de vínculos sólidos seriam reflexos de uma cultura que prioriza a conveniência em detrimento da intimidade. A discussão toca em um ponto nevrálgico da vida adulta: como equilibrar a autonomia e a correria do cotidiano com a necessidade humana de pertencimento e acolhimento.

Equilíbrio entre rotina e afeto

Para profissionais como Lilian Sá, psicóloga e advogada, a solução encontrada foi a criação de “encontros de manutenção”. Em vez de tentar manter uma rotina de conversas diárias, o foco é garantir que o tempo compartilhado seja de qualidade, preservando a “faísca” da amizade mesmo entre longos intervalos. Essa abordagem sugere que, mais do que a frequência, o que sustenta a amizade é a qualidade do vínculo e a disposição de ambos em retomar o diálogo quando as circunstâncias permitem.

O debate permanece aberto. Enquanto a tecnologia facilita a manutenção de laços à distância, o desafio de cultivar amizades profundas em um mundo hiperconectado, mas muitas vezes solitário, exige autoconhecimento e clareza. O M1 Metrópole segue acompanhando as transformações nas dinâmicas sociais e comportamentais da sociedade brasileira. Continue conosco para mais análises sobre cultura, comportamento e os temas que definem o nosso tempo.

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