Uma pesquisa inovadora conduzida por cientistas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP) revelou um potencial promissor na luta contra o câncer colorretal. O estudo, publicado em 16 de junho de 2026 na revista Nutrients, aponta que o dissulfeto de dialila, um composto natural encontrado no alho, pode aumentar significativamente a eficácia da quimioterapia tradicional, oferecendo novas perspectivas para o tratamento da doença.
O câncer colorretal é o segundo tipo de tumor mais diagnosticado e a segunda principal causa de morte relacionada ao câncer em todo o mundo. A descoberta de que uma substância facilmente disponível e de baixo custo, como o extrato de alho, pode potencializar os tratamentos existentes representa um avanço importante para pacientes e profissionais de saúde.
O Poder do Alho na Luta Contra o Câncer
O dissulfeto de dialila (DADS) é classificado como um nutracêutico, ou seja, um produto natural com propriedades biológicas ativas que tendem a ser bem toleradas pelo organismo. Sua acessibilidade e baixo custo o tornam um candidato ideal para terapias adjuvantes, especialmente em regiões com recursos limitados. Antes mesmo desta pesquisa, o DADS já havia demonstrado uma série de mecanismos antitumorais promissores.
Entre suas ações benéficas, o composto é conhecido por inibir o crescimento e a proliferação celular de tumores, regular o metabolismo carcinogênico e estimular a apoptose – um processo de morte celular programada e saudável, essencial para eliminar células danificadas ou cancerosas. Além disso, o DADS atua na prevenção da angiogênese, que é a formação de novos vasos sanguíneos que os tumores utilizam para se nutrir e crescer, e também auxilia na redução da invasão e migração de células cancerosas, minimizando a metástase. Outro ponto relevante é a capacidade do composto de reduzir os efeitos colaterais frequentemente associados aos tratamentos quimioterápicos.
A Sinergia Contra o Câncer Colorretal
A pesquisa da FCFRP-USP focou na interação do dissulfeto de dialila com o 5-fluorouracilo, um quimioterápico amplamente empregado no tratamento de diversas linhagens de câncer colorretal. Este medicamento é reconhecido por melhorar a sobrevida dos pacientes, sendo frequentemente indicado em combinação com cirurgia, inclusive em casos metastáticos, onde a doença já se espalhou para outras partes do corpo.
Durante o projeto de mestrado da pós-graduanda Estéfani Maria Treviso, a equipe avaliou o impacto de diferentes abordagens em células de câncer colorretal (dos tipos Caco-2 e HT-29) e, para comparação, em células saudáveis da veia umbilical humana. Ambos os grupos celulares foram expostos por 24 horas ao 5-fluorouracilo e ao dissulfeto de dialila, tanto de forma isolada quanto combinada. Ao final do período, os pesquisadores analisaram a citotoxicidade de cada tratamento, ou seja, sua capacidade de destruir as células tumorais enquanto preservava as células saudáveis.
A professora associada da FCFRP-USP, Lusânia Maria Greggi Antunes, destacou a relevância dos achados: “A conclusão foi que a sinergia entre o extrato de alho e o quimioterápico levou a uma ação mais eficaz contra as células tumorais utilizadas no estudo, mostrando que o uso do nutracêutico é promissor em tratamentos adjuvantes na quimioterapia”. Este resultado sugere que a combinação pode oferecer um caminho mais potente e menos agressivo para os pacientes.
Precedentes e Perspectivas para Outros Tumores
A expertise da equipe da USP com o dissulfeto de dialila não é recente. O composto já havia sido objeto de estudo no doutorado de Ana Rita Thomazela Machado, que investigou seu potencial em modelos celulares de câncer de fígado. Este tipo de câncer é o sétimo mais comum e a quinta causa de morte por câncer globalmente, e suas opções de tratamento são frequentemente limitadas. Os resultados dessa pesquisa anterior foram publicados no periódico Pharmaceutics, reforçando a tese de que associar quimioterápicos tradicionais a compostos bioativos de plantas é uma estratégia promissora.
Nesse trabalho anterior, a ação do ativo extraído do alho foi testada em combinação com o sorafenibe – um quimioterápico clinicamente utilizado que atua bloqueando vasos sanguíneos que nutrem o tumor e sinalizando para que as células cancerosas parem de crescer. O teste foi realizado in vitro contra células de carcinoma hepatocelular, uma linhagem conhecida por sua alta taxa de proliferação e por alterações genéticas que favorecem a sobrevivência do tumor.
“No segundo trabalho, o dissulfeto de dialila foi capaz de induzir a morte dessas células, inibir sua migração e autofagia, além de alterar a expressão de suas proteínas”, explicou Antunes. Ela concluiu que “quando combinado com o quimioterápico sorafenibe, o composto apresentou efeitos sinérgicos, mostrando-se uma estratégia promissora para o desenvolvimento de novos protocolos clínicos”.
Impacto e Próximos Passos na Pesquisa
Os estudos financiados pela Fapesp e conduzidos na FCFRP-USP abrem caminhos importantes para a oncologia. A possibilidade de utilizar um composto natural, de baixo custo e bem tolerado para aumentar a eficácia de quimioterápicos existentes pode revolucionar o tratamento de cânceres como o colorretal e o de fígado, tornando-o mais acessível e com menos efeitos adversos para os pacientes.
Embora os resultados sejam promissores e provenham de estudos in vitro, a próxima etapa natural para a pesquisa seria a translação para modelos in vivo e, eventualmente, ensaios clínicos em humanos. A validação desses achados em um contexto clínico real é fundamental para que o dissulfeto de dialila possa ser incorporado aos protocolos de tratamento, oferecendo uma nova esperança para milhões de pessoas afetadas por essas doenças globalmente.
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