A paisagem do Agreste pernambucano, especialmente em Caruaru, tem se mostrado um vibrante contraponto à imagem estereotipada de um sertão marcado exclusivamente pela aridez. No início de julho, a região surpreende com um cenário de muito verde e pontos floridos, desmistificando a ideia de uma sucessão ininterrupta de chão rachado e vegetação ressecada, mesmo sob um calor agradável de cerca de 30 graus.
Essa diversidade visual é um convite para desconstruir narrativas limitadas sobre o Nordeste. Carlos Magno, coordenador executivo do Centro Sabiá, questiona a persistência de focar apenas na seca ao abordar a região. Ele ressalta a vasta gama de paisagens e expressões culturais, que vão de áreas agrícolas e brejos de altitude à riqueza do forró, da poesia e da cerâmica, elementos que Caruaru encapsula de forma exemplar.
Alto do Moura: O Coração da Arte Figurativa
Caruaru serve como um portal para explorar essas múltiplas camadas. No bairro Alto do Moura, reconhecido pela Unesco como o maior centro de artes figurativas da América Latina, ateliês e casas de artesãos se espalham, convidando à imersão cultural. Uma visita sem pressa, entrando de porta em porta, revela a riqueza da produção local.
No ateliê da mestre Nicinha, por exemplo, é possível encontrar peças de diferentes tamanhos e estilos, além de ter a chance de ver os próprios artistas em plena criação. A hospitalidade dos mestres artesãos é parte integrante da experiência, oferecendo um olhar autêntico sobre o processo criativo e a tradição.
O Legado de Mestre Vitalino e a Tradição Familiar
Um dos pontos altos dessa jornada é a Casa-Museu Mestre Vitalino. Construída pelo lendário ceramista em 1959, a casa é hoje mantida por sua família, que continua o ofício. A neta, Emanuela Vitalino, e seus irmãos seguem pintando e produzindo peças, mantendo viva uma tradição que se estende a netos e bisnetos.
Emanuela descreve a casa como uma verdadeira obra de arte, um repositório de memórias da trajetória de Vitalino. O mestre, ao se estabelecer no Alto do Moura, convidava moradores para aprender a trabalhar com barro, disseminando a prática que se tornou um legado passado de geração em geração. Embora as oficinas abertas ao público não sejam permanentes, geralmente ocorrendo em junho em parceria com a Fundação de Cultura de Caruaru, é comum encontrar membros da família trabalhando no local durante o ano todo.
Pouco adiante, o Memorial Mestre Luiz Antônio abriga mais de 300 peças do artista, hoje com 91 anos, além de fotografias e documentos que narram sua carreira, incluindo uma exposição no Japão. Os visitantes podem acompanhar o manuseio do barro, conhecer as etapas de modelagem, queima e pintura, e adquirir peças diretamente da família. Para o filho Washington, uma das grandes lições do pai foi a importância de