O senador Flávio Bolsonaro (PL) confirmou sua pré-candidatura à Presidência da República em 2026, durante um discurso em Guarulhos, na Grande São Paulo, no último sábado (20). Em um evento que marcou o lançamento da pré-candidatura de André do Prado (PL) ao Senado Federal, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) surpreendeu ao adotar um slogan historicamente associado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: “A esperança vai vencer o medo”.
A fala do senador não apenas oficializou sua intenção de disputar o cargo máximo do país, mas também delineou uma plataforma que busca conciliar bandeiras tradicionais da direita com pautas sociais que, paradoxalmente, remetem a governos petistas. Flávio Bolsonaro justificou sua decisão como uma “missão dada” por seu pai, indicando a continuidade de um projeto político familiar.
A “missão dada” e o slogan que ecoa Lula
Durante seu discurso, Flávio Bolsonaro fez questão de contextualizar sua entrada na corrida presidencial, afirmando que, inicialmente, não almejava a candidatura. No entanto, ele reiterou que a decisão foi uma “missão” que lhe foi atribuída pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem ele descreveu como um mentor político. Essa narrativa de “missão” foi ecoada ao mencionar a trajetória do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que também estava presente no evento.
“Meu amigo Tarcísio sabe o que estou passando nesse momento. O Tarcísio nunca imaginou que seria governador aqui de São Paulo. Mas quando o presidente Bolsonaro aponta, o Tarcísio prontamente – carioca e flamenguista – veio ser governador de São Paulo”, afirmou o senador. Ele completou: “Eu também não queria lá atrás [ser candidato a presidente], mas as circunstâncias e a missão que me foi dada, que eu acredito que é projeto de Deus. Eu vou dar o meu melhor e tenho certeza que a esperança vai vencer o medo este ano”. A apropriação do slogan petista, que marcou a campanha vitoriosa de Lula em 2022, adiciona uma camada de complexidade à sua estratégia, buscando talvez dialogar com um eleitorado mais amplo.
Propostas “radicais” e o foco no combate à fome
Em sua plataforma, Flávio Bolsonaro apresentou propostas que ele classificou como “radicais” para a segurança pública. Entre elas, destacam-se o encarceramento em massa de ladrões de celulares, a castração química de estupradores e um combate incisivo às facções criminosas como o PCC e o Comando Vermelho. Essas medidas refletem uma linha dura, alinhada com o discurso de seu pai.
Contudo, o senador também direcionou parte de seu discurso para a pauta social, com um foco surpreendente no combate à fome. Ele prometeu ser “radical para cumprir uma promessa que o Lula faz há mais de 20 anos e não cumpre: o pacto contra a fome”. Flávio citou a necessidade de garantir alimentação para crianças desde a creche e prometeu zerar a fila por vagas nesses estabelecimentos, buscando apoio de estados e municípios. Essa abordagem remete ao programa Fome Zero, embrião do Bolsa Família, que foi uma das marcas dos governos petistas e elegeu Lula pela primeira vez em 2003.
A defesa do Bolsa Família e a busca pela formalização
A defesa do programa Bolsa Família tem sido uma constante nos discursos recentes de Flávio Bolsonaro. Na última segunda-feira (15), em um evento da revista VEJA, ele já havia declarado que o benefício se tornou um “direito adquirido” da população brasileira, inquestionável por qualquer governo. “Esse programa virou direito adquirido do povo brasileiro. Ninguém tem o direito de tocar ou de acabar com esse programa. Qualquer país do mundo tem um programa para pessoas de baixa renda que têm dificuldade alimentar”, afirmou.
O senador propôs, ainda, uma reforma no programa para que os beneficiários possam manter o auxílio por um período mais longo após conseguirem um emprego formal ou abrirem uma empresa. Ele argumenta que o receio de perder o benefício desestimula a formalização de muitos trabalhadores informais. “Quase 70% das pessoas que recebem o Bolsa Família trabalham informalmente e não vão para a formalidade porque têm medo de perder o benefício”, declarou. Durante o governo de Jair Bolsonaro, o Bolsa Família foi extinto em 2021 e substituído pelo Auxílio Brasil, que teve um aumento temporário para R$ 600 em 2022. Flávio Bolsonaro, no entanto, busca ampliar o período de proteção para quem deixar a informalidade, com o objetivo de dar mais segurança às famílias durante a transição. O programa Bolsa Família, por exemplo, que se tornou um pilar das políticas sociais brasileiras, foi defendido por Flávio como um “direito adquirido” da população.
Além disso, o pré-candidato defendeu a criação de iniciativas diversificadas para os beneficiários, incluindo acesso à internet de alta velocidade, microcrédito, educação financeira e redução da burocracia para a abertura de pequenos negócios. “O objetivo pessoal meu é fazer com que as pessoas caminhem com as próprias pernas, sem depender de político. Precisamos trazer grandes empreendimentos que gerem empregos e deem um salário melhor, para que as pessoas não precisem mais desse tipo de ajuda. Mas, até lá, quem precisar do governo terá o apoio”, declarou.
Reforço na equipe: Daniela Marques para pautas econômicas e sociais
Para fortalecer sua campanha, Flávio Bolsonaro anunciou a proximidade da ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Daniela Marques, que deverá atuar na elaboração de propostas para as áreas econômica e social. “Ela está perto de nós aqui na campanha e vai me ajudar nessa parte econômica, mas, principalmente, na pauta de responsabilidade social”, declarou o senador.
Daniela Marques, que se licenciou de sua empresa para se dedicar ao projeto, pretende contribuir com um modelo econômico “mais austero e virtuoso”. Sua experiência na Caixa, onde foi nomeada por Jair Bolsonaro em 2022 e atuou na equipe de Paulo Guedes, é vista como um trunfo, especialmente em iniciativas voltadas a mulheres empreendedoras. “Com a experiência que ela teve na Caixa Econômica e com programas específicos para as mulheres empreendedoras, ela mostrou como é possível, com o uso de tecnologia, boa vontade e boas políticas públicas, estender a mão para aquelas pessoas que querem caminhar com as próprias pernas e empreender, mas não sabem como”, afirmou Flávio, destacando a capacidade de Daniela em propor soluções para microcrédito, educação financeira e desburocratização.
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