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Creatina na menopausa: influenciadoras promovem suplemento com pouca base científica

Bobbi Lin/New York Times
Bobbi Lin/New York Times

A busca por soluções para os desafios da menopausa tem impulsionado o surgimento de diversas tendências no universo digital, muitas delas promovidas por influenciadoras. Entre os produtos que ganharam destaque nas redes sociais como um suposto aliado para a saúde feminina na meia-idade, a creatina — um suplemento há muito popular entre atletas e fisiculturistas — tem sido fervorosamente defendida. Contudo, a comunidade científica adverte que o entusiasmo em torno da creatina na menopausa carece de um respaldo robusto e conclusivo.

A transição menopáusica, que inclui a perimenopausa e a pós-menopausa, é um período marcado por significativas alterações hormonais, como a queda dos níveis de estrogênio. Essas mudanças podem acarretar uma série de sintomas e riscos à saúde, desde ondas de calor e infecções urinárias até a perda de massa muscular, problemas de memória e alterações de humor. Diante desses desafios, a promessa de um suplemento capaz de mitigar tais efeitos se torna particularmente atraente para milhões de mulheres.

A Ascensão da Creatina nas Redes Sociais para a Menopausa

No ambiente digital, influenciadoras têm propagado a creatina como uma ferramenta eficaz para combater a perda de massa muscular, um dos efeitos mais notórios da diminuição do estrogênio. A lógica apresentada é direta: médicos frequentemente recomendam a prática de musculação para preservar a força e a massa muscular durante o envelhecimento. As defensoras do suplemento argumentam que a creatina potencializaria os resultados desses treinos, otimizando a saúde das mulheres.

Além dos benefícios musculares, algumas influenciadoras também sugerem que a creatina pode atuar na melhoria da memória e do humor, que são queixas comuns durante e após a perimenopausa. Essa narrativa, embora sedutora, levanta questionamentos importantes sobre a base científica que sustenta tais alegações, especialmente quando a informação se espalha rapidamente sem o devido escrutínio.

O Que a Ciência Sabe (e Não Sabe) Sobre a Creatina em Mulheres

A creatina é um composto nitrogenado produzido naturalmente pelo organismo, principalmente no fígado e nos rins, e armazenado em grande parte nos músculos, onde desempenha um papel crucial na geração rápida de energia (ATP). Também é obtida através da alimentação, especialmente em carnes e frutos do mar. A forma mais estudada é a creatina monoidratada, que possui um volume de pesquisa maior do que a maioria dos suplementos disponíveis no mercado.

De fato, estudos indicam que a creatina é geralmente segura e pode promover um aumento modesto na massa muscular e no desempenho físico em algumas pessoas, especialmente atletas competitivos, onde pequenas melhorias podem fazer uma grande diferença. No entanto, o cenário muda consideravelmente quando o foco se volta especificamente para mulheres na menopausa.

Especialistas apontam que a maior parte das pesquisas sobre creatina foi realizada com homens, resultando em um notável “viés de gênero” nas evidências disponíveis. As poucas investigações que incluíram mulheres sugerem que os homens tendem a se beneficiar mais, o que significa que os resultados não podem ser simplesmente extrapolados para o público feminino. Estudos focados em mulheres, por sua vez, frequentemente apresentam limitações significativas, como amostras muito pequenas. Um exemplo citado é uma pesquisa que encontrou “aumentos significativos na força dos membros inferiores” em participantes peri e pós-menopáusicas, mas que contou com apenas 15 voluntárias.

Uma metanálise recente constatou que a creatina melhorou a força muscular na população geral, mas não conseguiu chegar a conclusões definitivas sobre seus efeitos na meia-idade devido à escassez de dados específicos. Outro artigo de 2021, que sugeriu benefícios no desempenho físico, foi criticado pela qualidade variada dos estudos citados e pelo fato de dois de seus autores terem declarado atuação como consultores científicos de uma fabricante do suplemento, levantando preocupações sobre potenciais conflitos de interesse.

Entre o Ceticismo e a Cautela: A Visão dos Especialistas

A Dra. Pelin Batur, diretora médica do Centro de Saúde e Pesquisa para Mulheres da Cleveland Clinic, é enfática ao afirmar que os dados sobre os efeitos da creatina em mulheres são “na verdade bastante fracos”. A professora Nanette Santoro, da Universidade do Colorado, que pesquisa a menopausa, concorda: “Estamos longe de ter estudos adequados feitos em mulheres para recomendá-la.”

Essas visões contrastam com a de Bonnie Jortberg, nutricionista e professora associada de medicina de família na mesma universidade, que considera as evidências suficientes para apoiar o uso da creatina, especialmente para combater a perda muscular associada à menopausa, desde que combinada com treinamento de resistência. Ela ressalta que, embora não endosse a maioria dos suplementos, as conclusões do artigo de 2021 a convenceram sobre o potencial da creatina neste contexto.

No que tange aos efeitos sobre memória e humor, a pesquisa é ainda mais limitada e com as mesmas restrições de amostra e foco. Embora alguns estudos sugiram que a creatina possa auxiliar na memória, possivelmente melhorando o metabolismo energético cerebral, e ter um efeito sobre o humor, esses benefícios potenciais são considerados “muito pequenos” e o quadro científico não é definitivo, segundo a Dra. Batur.

Recomendações e Cuidados ao Considerar o Suplemento

Apesar da falta de evidências conclusivas para a creatina na menopausa, vários especialistas afirmam que o suplemento é geralmente seguro, com efeitos colaterais leves como desconforto estomacal ou retenção de líquidos. No entanto, é crucial que pessoas com doença renal consultem um médico antes de iniciar o uso. Tanto a Dra. Batur quanto a Dra. Santoro, embora não endossem o suplemento com base nas evidências clínicas atuais, não dissuadiriam uma paciente saudável que desejasse experimentá-lo para ganho muscular ou sintomas cognitivos, dado o baixo custo e o baixo risco. “A creatina tem custo baixo e pouco risco”, diz Santoro. “Sei que não funciona com certeza? Não sei. Vai prejudicar minha paciente? Provavelmente não.”

Para quem optar por tomar creatina, a nutricionista Bonnie Jortberg recomenda não exceder cinco gramas por dia. Os músculos possuem uma capacidade limitada de armazenamento, e doses maiores aumentam o risco de efeitos colaterais. Além disso, todos os suplementos apresentam risco de contaminação ou dosagem inconsistente. Por isso, a escolha de marcas certificadas por organizações independentes, como a USP ou a NSF, é fundamental para reduzir esses riscos. É importante lembrar que a creatina é um suplemento e não um substituto para a prática regular de exercícios de resistência, que são essenciais para a manutenção da massa muscular.

A popularidade da creatina nas redes sociais demonstra o poder da informação digital, mas também a necessidade de um olhar crítico. A Dra. Santoro enfatiza que, na avaliação de evidências científicas, são necessários estudos com “centenas a milhares de pessoas” e que sejam “replicados” para se chegar a conclusões sólidas. Enquanto a ciência não avança com mais dados específicos para mulheres na menopausa, a cautela e a consulta a profissionais de saúde continuam sendo as melhores abordagens para a tomada de decisões sobre suplementação. Para mais informações sobre saúde e bem-estar, continue acompanhando o M1 Metrópole, seu portal de notícias com informação relevante, atual e contextualizada, sempre comprometido com a qualidade e a credibilidade.

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