A produção do filme “Dark Horse”, que aborda a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, está sob o escrutínio da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo. A produtora Go UP Entertainment declarou um custo de R$ 75,1 milhões para a realização do longa-metragem, valor que agora é alvo de uma investigação minuciosa sobre a origem dos recursos e a possível utilização de verbas públicas.
No centro da apuração está a empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go UP Entertainment. Ela também é dona da ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), que firmou um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de pontos de wi-fi na periferia da capital. A investigação busca determinar se houve desvio de parte desses recursos públicos para financiar o filme sobre Bolsonaro, levantando sérias questões sobre transparência e legalidade.
Os Valores Milionários e a Sombra da Investigação
O montante declarado pela Go UP Entertainment, de R$ 75,1 milhões, é detalhado em um documento anexado ao inquérito. Segundo este laudo, R$ 54 milhões teriam sido gastos no exterior e R$ 20,9 milhões no Brasil. Em conversão para a moeda americana, o custo total do filme seria de US$ 13,39 milhões, conforme apontado pela defesa de Karina Gama. Curiosamente, a produtora Go UP Entertainment não possuía histórico de produção cinematográfica no Brasil antes do “Dark Horse”.
Os valores apresentados no laudo, porém, não são acompanhados de recibos ou notas fiscais que comprovem os gastos. Essa ausência de documentação robusta é um dos pontos cruciais da investigação, especialmente porque a ONG ICB, também de Karina Gama, já havia apresentado notas fiscais sem valor fiscal na prestação de contas do contrato de wi-fi com a Prefeitura de São Paulo.
Conexões Suspeitas: Wi-Fi e Cinema
A ligação entre o filme sobre Bolsonaro e o contrato de wi-fi na periferia paulistana é um dos pilares da investigação. O Instituto Conhecer Brasil (ICB), responsável pelo contrato de R$ 108 milhões com a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) – um aliado da família Bolsonaro –, opera no mesmo endereço da produtora Go UP Entertainment e pertence à mesma empresária, Karina Gama. Assim como a produtora, a ONG também não tinha experiência prévia na instalação de pontos de wi-fi antes de assumir o contrato em junho de 2024.
Essa coincidência de endereços, proprietária e a falta de histórico em suas respectivas áreas de atuação levantam suspeitas de que as duas entidades poderiam estar interligadas em um esquema de desvio de verbas. A Polícia Civil e o Ministério Público querem esclarecer se recursos destinados a um serviço público essencial foram, de fato, redirecionados para uma produção cinematográfica de cunho político.
O Papel do Banqueiro e as Negociações Políticas
A investigação também aponta para o envolvimento do banqueiro Daniel Vorcaro no financiamento do filme. Vorcaro, que atualmente está preso por um rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), teria repassado R$ 61 milhões para o longa-metragem por meio de um fundo nos Estados Unidos. Karina Gama, em entrevista, afirmou que Vorcaro atuou como um “intermediador de verba” e que 90% do orçamento inicial do filme (cerca de US$ 13 milhões) veio dele.
As negociações para o financiamento do filme teriam envolvido diretamente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho do ex-presidente. Segundo informações, Flávio teria negociado o repasse de US$ 24 milhões (equivalente a R$ 134 milhões na época) e pressionado pelos pagamentos. A prisão de Vorcaro, segundo Karina, obrigou a equipe do filme a buscar novos investidores privados para dar continuidade ao projeto, que ainda está em fase de pós-produção.
A Defesa e as Lacunas na Prestação de Contas
O laudo que detalha os gastos do filme foi elaborado pelo Instituto de Perícia Investigativa (IPI), a pedido dos advogados de defesa de Karina Gama. O perito Anísio Costa Castelo Branco, que assina o documento, afirma ter baseado suas conclusões em contratos, planilhas financeiras e extratos bancários da ONG. Contudo, o laudo não apresenta esses documentos para comprovar os números e, crucialmente, não esclarece a origem dos R$ 20,9 milhões gastos no Brasil pela Go UP.
Apesar disso, o perito particular declarou que “não identificou entradas de caixa oriundas de recursos públicos, repasses governamentais ou financiamentos”. Essa afirmação contrasta com a linha de investigação das autoridades, que continuam a aprofundar a apuração sobre a possível utilização indevida de verbas. A complexidade da teia financeira e as conexões políticas envolvidas tornam este um caso de grande repercussão e interesse público.
O M1 Metrópole continuará acompanhando de perto os desdobramentos desta investigação, trazendo as informações mais recentes e contextualizadas sobre o caso. Para ficar por dentro de todas as notícias relevantes do cenário nacional e local, acompanhe nosso portal, que se dedica a oferecer conteúdo aprofundado e de qualidade para seus leitores.