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Residência médica em SP: denúncias revelam jornadas de até 90 horas no Hospital do Servidor

16.jul.25/Folhapress
16.jul.25/Folhapress

Uma grave denúncia lançou luz sobre as condições de trabalho dos médicos residentes no Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE), em São Paulo. Profissionais em formação relatam estar submetidos a jornadas exaustivas que podem atingir até 90 horas semanais, um número que ultrapassa significativamente o limite legal estabelecido em 60 horas. A situação, que já foi levada ao Conselho Nacional de Residência Médica (CNRM), órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC), expõe uma realidade preocupante para a saúde dos futuros médicos e a segurança dos pacientes.

As especialidades de ortopedia, neurocirurgia, cirurgia geral, otorrinolaringologia e ginecologia e obstetrícia são as mais afetadas, segundo os relatos. O cenário descrito pelos residentes, que preferiram manter o anonimato, inclui exaustão física e psicológica severa, plantões de 12 horas sem direito a pausas para alimentação ou hidratação, e uma rotina que se estende das 6h às 19h de segunda a sexta-feira, sem o devido registro de ponto. Tais condições não apenas comprometem o bem-estar dos profissionais, mas também levantam sérias questões sobre a qualidade da assistência prestada aos pacientes.

A realidade da residência médica e o limite legal

A legislação brasileira, por meio da Lei 6.932/1981, é clara ao definir a carga horária máxima para médicos residentes: 60 horas semanais, incluindo até 24 horas de plantão. A norma também garante um dia de folga semanal, 30 dias de férias anuais e a destinação de 10% a 20% da jornada para atividades teóricas. No entanto, o presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo, Augusto Ribeiro, aponta que o desrespeito a essas diretrizes é uma prática comum e generalizada em diversas instituições de saúde pelo país, não sendo um problema exclusivo do Iamspe.

A falta de vagas de residência médica no Brasil cria um ambiente onde os jovens profissionais, após anos de estudo e dedicação para serem aprovados, acabam aceitando condições de trabalho precárias. Essa dinâmica os submete a uma rotina desumana, onde a formação acadêmica e prática é muitas vezes ofuscada pela necessidade de suprir a demanda assistencial dos hospitais. O resultado é um ciclo vicioso que afeta a saúde mental dos residentes e a qualidade de sua capacitação profissional.

Iamspe sob escrutínio e as consequências da sobrecarga

O Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe), responsável pela gestão do HSPE, defende que segue a legislação vigente e que já prestou todos os esclarecimentos solicitados pelo CNRM, colaborando com a investigação em curso. A instituição ainda destaca que seu programa de residência é um dos mais reconhecidos do Brasil, com um baixo índice de desistências: apenas quatro em 2026, para 238 vagas disputadas por 7.175 inscritos. Contudo, os relatos dos residentes indicam uma discrepância entre a versão oficial e a vivência diária no hospital.

A sobrecarga de trabalho tem levado a consequências graves para os residentes. Há relatos de profissionais que desistiram do programa por não suportarem a rotina e de outros que desenvolveram quadros de depressão e ansiedade. Augusto Ribeiro ressalta que o HSPE, assim como outras unidades públicas, enfrenta desafios de financiamento e dificuldades na reposição de seus quadros. Essa conjuntura faz com que o residente, que deveria estar em um processo de aprendizado supervisionado, acabe assumindo um papel de “médico de assistência”, com responsabilidades que excedem sua etapa de formação.

Implicações para a saúde pública e a formação médica

A transformação do residente em um substituto para a falta de profissionais compromete diretamente sua formação. O excesso de responsabilidade e a escassez de supervisão adequada resultam em uma capacitação deficiente, o que, a longo prazo, pode impactar a qualidade da assistência médica oferecida à população. Além disso, a exaustão dos profissionais em formação é um fator de risco para erros médicos, colocando em perigo a vida dos pacientes que dependem do sistema público de saúde.

A denúncia ao MEC e a investigação do CNRM são passos importantes para que as condições de trabalho na residência médica sejam revistas e adequadas à legislação. É fundamental que as instituições de saúde garantam um ambiente de aprendizado seguro e saudável, onde os futuros médicos possam desenvolver suas habilidades sem comprometer sua saúde física e mental ou a segurança dos pacientes. A resolução deste problema no HSPE pode servir de precedente para um olhar mais atento sobre a realidade da residência médica em todo o país.

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