O icônico Estádio Conde Rodolfo Crespi, mais conhecido como Estádio da Rua Javari, na Mooca, Zona Leste de São Paulo, palco de momentos históricos do futebol brasileiro, encontra-se no centro de um debate que contrapõe a ambição esportiva e a rigorosa legislação de preservação do patrimônio. O Clube Atlético Juventus, impulsionado pelo retorno à elite do Campeonato Paulista, iniciou uma ampla reforma em seu estádio tombado, mas as obras avançam sem a devida autorização da Prefeitura e do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).
A situação levanta questionamentos sobre a legalidade das intervenções e a gestão de bens históricos, especialmente quando a pressão por modernização e adequação a novas exigências esportivas colide com a necessidade de salvaguardar a memória e a arquitetura de um local tão significativo para a cidade.
Obras em ritmo acelerado e o desafio do tombamento
A movimentação no Estádio da Rua Javari se intensificou logo após a vitória do Juventus sobre a Ferroviária, em 13 de maio, que garantiu o acesso à Série A1 do Campeonato Paulista depois de 19 anos. Moradores e comerciantes do entorno relatam um aumento constante no barulho de construção e na presença de operários. Registros feitos por vizinhos no final do mês passado mostram a demolição de estruturas como o alambrado e os bancos de reservas de concreto por máquinas pesadas.
Além dessas intervenções, uma arquibancada lateral e um ginásio de futsal, localizado próximo à entrada principal da Rua Javari, foram completamente derrubados. O principal objetivo dessas reformas é ambicioso: triplicar a capacidade do estádio para receber até 15 mil torcedores. Essa ampliação é crucial para que o Juventus atenda aos parâmetros exigidos pela Federação Paulista de Futebol e possa mandar seus jogos da Série A1 do Paulistão em casa no próximo ano.
A burocracia do patrimônio e a falta de alvará
O Estádio Conde Rodolfo Crespi foi reconhecido como patrimônio da cidade de São Paulo em 2016, devido às suas características arquitetônicas e valor histórico. Uma resolução do Conpresp detalha quais elementos devem ser preservados, incluindo muros, entrada principal, bilheterias, arquibancadas, as gerais e o campo de futebol. A mesma resolução permite alterações ou demolições em construções erguidas após o projeto original, mas ressalta a necessidade de “apreciação caso a caso” pelo conselho.
Atualmente, o pedido de restauro das edificações tombadas, a demolição de anexos não protegidos e as novas intervenções no estádio ainda estão em análise técnica pelo Departamento do Patrimônio Histórico (DPH). Somente após essa avaliação, o Conpresp poderá emitir sua autorização. Paralelamente, um pedido de alvará para a reforma do imóvel também está sob análise da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento.
A Secretaria Municipal de Cultura informou ao g1 que a avaliação em curso considera a conformidade do projeto com as exigências de restauro, conservação e requalificação do imóvel tombado, além da viabilidade da execução das intervenções em parceria com a SAF-Juventus. No entanto, a gestão municipal não se manifestou sobre possíveis punições ao clube pelo início das obras antes da manifestação oficial. O arquiteto e urbanista Silvio Oksman, especialista em preservação de patrimônio, reforça que, se o projeto ainda está em aprovação, nenhuma obra deveria ter sido iniciada, pois o tombamento abrange todo o lote.
Um histórico de desafios e desvios de recursos
A atual situação do Juventus não é um fato isolado. O clube enfrentou problemas semelhantes no passado, relacionados à gestão de recursos destinados à conservação do estádio. Em 2022, o Juventus obteve autorização da Prefeitura para vender o “potencial construtivo” não utilizado do imóvel, uma operação que rendeu cerca de R$ 2,3 milhões. Esse valor, conforme termo de compromisso, deveria ser aplicado integralmente na conservação do patrimônio tombado.
A Transferência do Direito de Construir (TDC) é um mecanismo do Plano Diretor de São Paulo que permite a proprietários de imóveis tombados venderem seu potencial construtivo adicional a empreendedores, que, por sua vez, podem erguer prédios mais altos em outras áreas da cidade. O dinheiro arrecadado por essa via é, em tese, revertido para a conservação do patrimônio.
No entanto, passados quase três anos, o clube não havia apresentado o projeto de restauração. Essa inadimplência resultou em uma multa contratual de R$ 2,9 milhões aplicada pela prefeitura em 2025, além da exigência de devolução integral dos R$ 2,3 milhões ao Fundo de Proteção do Patrimônio Cultural (Funcap). Durante o processo de transição para a Sociedade Anônima do Futebol (SAF), a nova diretoria descobriu indícios de desvio de finalidade dos recursos, que teriam sido usados para quitar empréstimos pessoais de ex-dirigentes. O caso virou alvo de sindicância interna e inquérito policial, investigado como lavagem de dinheiro pelo Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC).
Diante das evidências de que o clube foi vítima de sua própria administração, o Conpresp decidiu suspender a multa contra o Juventus enquanto analisa o novo projeto de restauro e reforma apresentado em março. Uma decisão definitiva sobre a punição será tomada após a conclusão da análise técnica.
O futuro do Estádio da Rua Javari: entre a tradição e a modernização
A saga do Estádio da Rua Javari reflete a complexidade de conciliar a modernização necessária para o futebol profissional com a preservação de um patrimônio histórico e cultural. Enquanto o Juventus busca se adequar às exigências da Federação Paulista para brilhar na elite, a falta de autorização prévia para as obras e o histórico de má gestão dos recursos de conservação colocam o clube em uma posição delicada. A comunidade da Mooca e os amantes do futebol aguardam os desdobramentos, esperando que a tradição do estádio seja respeitada, ao mesmo tempo em que se viabiliza um futuro promissor para o Moleque Travesso.
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