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Ebola no Congo: minas de ouro impulsionam surto devastador em Mongbwalu

25.mai.26/The New York Times
Reprodução Folha

A remota cidade de Mongbwalu, na província de Ituri, República Democrática do Congo, emergiu como o epicentro de um devastador surto de ebola, impulsionado pela intensa atividade de mineração de ouro na região. A doença, causada por uma cepa menos conhecida do vírus Bundibugyo para a qual não há tratamento, tem se espalhado silenciosamente por semanas antes de ser oficialmente detectada, revelando a complexa intersecção entre economia, conflito e saúde pública em uma das áreas mais vulneráveis da África.

O surto, agora classificado como o terceiro maior já registrado, começou em fevereiro, mas só foi identificado em 15 de maio de 2026. Nesse período, o vírus já havia se alastrado pelas minas de ouro, onde milhares de garimpeiros trabalham em condições precárias, muitos deles fugindo de conflitos em outras partes do país. A mobilidade desses trabalhadores e o comércio de ouro, que frequentemente cruza fronteiras, criam um cenário propício para a rápida disseminação da doença.

A Trágica Conexão entre Ebola e o Ouro no Congo

A história de Mumbere Saidi, um garimpeiro de 27 anos, ilustra a dura realidade enfrentada por muitos. Fugindo de um ataque de um grupo afiliado ao Estado Islâmico em sua fazenda, Saidi percorreu 320 km até as minas de ouro no nordeste do Congo em busca de trabalho. Lá, ele garimpava ouro, enviando dinheiro para seus pais quando os tempos eram bons e lutando para sustentar sua esposa e filha recém-nascida nos momentos difíceis. No entanto, a segurança que ele buscava foi abalada por um inimigo invisível.

Quando Saidi adoeceu, seus sintomas inicialmente se assemelhavam aos da malária. Com a piora de seu estado, familiares desesperados o levaram a seis clínicas diferentes em busca de uma cura, sem sucesso. Após sua morte, trabalhadores da Cruz Vermelha, em trajes de proteção, removeram seu corpo de sua casa de paredes de barro, um procedimento que se tornou dolorosamente comum na comunidade. O irmão de Saidi, Kondu Ganda, usou um eufemismo para ebola, refletindo a relutância de muitos em nomear a doença em uma cidade onde a desinformação e o medo persistem.

Mongbwalu: Um Epicentro de Riqueza e Vulnerabilidade

Por mais de um século, o ouro tem sido a força vital de Mongbwalu, uma cidade remota nas colinas da província de Ituri. A região, parte do cinturão de ouro de Kilo-Moto, tem uma história marcada pela exploração, desde os colonizadores belgas que usavam trabalho forçado, passando pela má gestão sob o ditador Mobutu Sese Seko, até os conflitos entre milícias e senhores da guerra que lutaram por suas riquezas. Entre 2002 e 2003, a Human Rights Watch registrou a morte de pelo menos 2.000 civis na área.

Embora Mongbwalu esteja relativamente pacífica hoje, o conflito étnico se intensifica nas áreas rurais circundantes. A maior parte da mineração é realizada por pequenos garimpeiros que trabalham em condições insalubres. Muitos vêm de outras províncias, como Kivu do Norte, que já enfrentou um surto de ebola entre 2018 e 2020. A economia do ouro atrai um fluxo constante de trabalhadores, comerciantes e contrabandistas do Congo e de países vizinhos, criando um caldo de cultura para a disseminação de doenças. As autoridades locais estimam que mais de 80 pessoas morreram de ebola no Congo nas semanas anteriores à detecção oficial do surto.

Desafios na Contenção e a Persistência do Vírus Bundibugyo

A cepa Bundibugyo do ebola apresenta desafios adicionais, pois não há tratamento específico disponível, ao contrário de outras variantes. A falta de detecção precoce e a dificuldade em rastrear contatos em uma população tão fluida e desconfiada complicam os esforços de contenção. A reportagem do The New York Times, que visitou a região, observou dezenas de homens trabalhando em riachos, escavando sedimentos e usando mercúrio com as mãos nuas para extrair ouro, um processo que por si só já causa graves problemas de saúde, como danos neurológicos.

Apesar dos perigos evidentes, muitos garimpeiros, como Bienvenue Bironyi, de Kivu do Norte, afirmam não ter escolha senão continuar trabalhando. Gedeon Abimana, outro garimpeiro, mencionou que ganhava entre US$ 136 e US$ 272 por semana, um valor considerável no Congo rural, mas que vem com riscos inegáveis. A percepção de que o ebola “não existe” ou é um “esquema para ganhar dinheiro” é comum, dificultando a adesão às medidas de saúde pública.

O Impacto Social e Econômico de uma Epidemia Subestimada

A cidade de Mongbwalu não pode parar. Caminhões de mineração pesados descem a rua principal de terra, mototáxis se aglomeram nas esquinas e a vida continua, mesmo com a sombra da doença. Michel Anguma, um garimpeiro, minimizou a calamidade, afirmando que, embora as pessoas estivessem morrendo, os trabalhadores do ouro não podiam se dar ao luxo de se preocupar. Essa atitude reflete a profunda dependência econômica da mineração e a falta de alternativas para a subsistência.

Jean-Pierre Bikilisende, ex-prefeito da cidade, expressou um temor generalizado: “Tememos que estejamos apenas no início de nossa desgraça”. A combinação de um vírus agressivo, condições de vida precárias, desconfiança da população e a incessante busca por ouro cria um cenário de crise humanitária e de saúde que exige atenção urgente da comunidade internacional. Para mais detalhes sobre a situação, você pode consultar a reportagem original do The New York Times.

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