O cenário da segurança pública no Brasil ganhou um novo elemento de debate com as recentes declarações de Romeu Zema (Novo). Durante um evento promovido pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) em São Paulo, o ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência da República defendeu abertamente que o país siga os passos de El Salvador. A proposta central de Zema foca no que ele chama de um choque de ordem baseado no encarceramento em massa e no endurecimento rigoroso das leis penais.
A inspiração salvadorenha e o combate às facções
Zema fundamenta sua tese nos resultados apresentados pelo governo de Nayib Bukele. Segundo o político brasileiro, a experiência na América Central é a mais bem-sucedida da história recente no que diz respeito à redução drástica de homicídios. Ele destacou que, em um intervalo de quatro anos, o país conseguiu reduzir em 99% sua taxa de criminalidade, um feito que ele considera inédito e digno de replicação em solo nacional.
Para viabilizar essa mudança no Brasil, o pré-candidato sugere uma alteração profunda na classificação jurídica de membros de organizações criminosas. Em sua visão, qualquer indivíduo pertencente a facções deve ser enquadrado como terrorista. Essa mudança de nomenclatura não seria apenas simbólica, mas serviria para sustentar penas mínimas de 25 anos, sem direito a benefícios como progressão de regime ou saídas temporárias.
A lógica apresentada por Zema é direta: manter o criminoso isolado da sociedade pelo maior tempo possível. Ele acredita que o sistema atual é excessivamente leniente e que apenas o encarceramento em massa pode desarticular o poder logístico e financeiro do crime organizado que hoje desafia o Estado brasileiro.
A polêmica eficácia do regime de exceção de Bukele
Embora os números de redução da violência em El Salvador sejam expressivos, o modelo é alvo de intensas críticas por parte de organismos internacionais. O governo de Bukele implementou um regime de exceção que suspendeu garantias constitucionais, permitindo detenções sem mandados judiciais e limitando o direito de defesa. O símbolo máximo dessa política é o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), uma megaprisão com capacidade para 40 mil detentos.
Entidades de defesa dos direitos humanos alertam para o custo social dessa estratégia. Estimativas indicam que pelo menos 21 mil pessoas inocentes podem ter sido presas injustamente durante as operações. No entanto, a popularidade de Bukele permanece alta, tendo sido reeleito em 2024 com cerca de 80% dos votos, o que demonstra um forte respaldo popular à política de tolerância zero, apesar das controvérsias democráticas.
Zema relatou ter visitado o país pessoalmente no ano passado, acompanhado de sua equipe de segurança. Segundo ele, o contato direto com moradores de comunidades locais revelou uma aprovação unânime das medidas. Ele afirma que a sensação de segurança recuperada pela população compensaria, na visão dos eleitores locais, o rigor do sistema prisional.
Cenário eleitoral e críticas aos bastidores da política
A defesa de uma pauta de segurança pública radical ocorre em um momento em que as pesquisas de intenção de voto começam a desenhar o tabuleiro para 2026. Dados recentes do Datafolha mostram Zema com 3% das intenções de voto, empatado com Ronaldo Caiado, enquanto o cenário é liderado por Lula (38%) e Flávio Bolsonaro (35%). Ao adotar um discurso de linha-dura, Zema busca se diferenciar e atrair o eleitorado que prioriza a ordem pública.
Além das propostas de segurança, o pré-candidato aproveitou o fórum da Amcham para disparar críticas indiretas a adversários políticos. Sem citar nomes, ele condenou a proximidade de figuras públicas com indivíduos denunciados e criticou o uso de relações familiares na política. Zema utilizou expressões populares para ilustrar sua desaprovação ao que chamou de “companheirada” e nepotismo, defendendo a meritocracia técnica na gestão pública.
O debate sobre a importação do modelo salvadorenho promete ser um dos eixos centrais da discussão política nos próximos meses. Especialistas em segurança pública no Brasil dividem-se entre a necessidade de maior rigor e o temor de que medidas de exceção possam agravar a crise do sistema carcerário brasileiro, que já sofre com superlotação e domínio de facções dentro dos presídios. Você pode conferir mais análises sobre segurança pública no portal do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
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