A gestão do ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), utilizou uma fintech sob investigação por suposta atuação como um ‘banco paralelo’ do Primeiro Comando da Capital (PCC) para movimentar um montante expressivo de R$ 1,36 bilhão. Os recursos, provenientes de programas estaduais de transferência de renda, foram repassados a uma conta da BK Instituição de Pagamento, conhecida como BK Bank, e geraram taxas que recaíram sobre os comerciantes credenciados.
A revelação, baseada em um documento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) obtido pela imprensa, lança luz sobre a complexidade e os riscos inerentes à contratação de serviços financeiros por órgãos públicos, especialmente quando as empresas envolvidas são posteriormente alvo de investigações criminais. O período da movimentação abrange os dois mandatos de Caiado, entre outubro de 2021 e agosto de 2025, estendendo-se até o mês da deflagração da Operação Carbono Oculto, que expôs as suspeitas sobre a fintech.
A Conexão com a Operação Carbono Oculto e o PCC
A BK Instituição de Pagamento, ou BK Bank, está no centro de uma séria investigação conduzida pela Polícia Federal (PF), Receita Federal e Ministério Público de São Paulo. As autoridades apontam a fintech como suspeita de atuar diretamente para a facção criminosa PCC, funcionando como um banco paralelo para a movimentação de recursos ilícitos. Essa alegação adiciona uma camada de gravidade à parceria com o governo estadual de Goiás.
O relatório do Coaf detalha os repasses bilionários da Agência de Fomento de Goiás para a BK Bank. Essa agência, que tem o governo estadual como acionista majoritário e detentor do controle acionário, é a responsável pela operacionalização de diversos benefícios sociais no estado. A escolha de uma instituição que viria a ser ligada a atividades criminosas levanta questionamentos sobre os critérios de seleção e a devida diligência nos processos de contratação pública.
Fluxo de R$ 1,3 Bilhão em Programas Sociais
Os R$ 1,36 bilhão movimentados pela gestão de Caiado através da BK Bank estavam destinados ao pagamento de programas de transferência de renda que atendem cerca de 880 mil beneficiários em Goiás. A dinâmica era a seguinte: a Agência de Fomento de Goiás repassava os valores para uma conta na BK Bank, e a partir dessa conta, os recursos eram efetivados para os cartões dos usuários finais dos programas sociais.
Essa estrutura de pagamentos, embora comum em programas sociais, torna-se problemática quando a instituição intermediária é envolvida em esquemas de lavagem de dinheiro ou apoio a organizações criminosas. A escala da movimentação financeira e o número de beneficiários envolvidos sublinham a relevância social do caso, impactando diretamente a vida de milhares de famílias que dependem desses auxílios.
As Taxas que Recaíram sobre os Comerciantes
Um dos aspectos mais sensíveis da parceria entre o governo de Goiás e a fintech suspeita é a incidência de uma taxa de utilização. Até 2024, sobre o valor das operações dos programas sociais, era cobrada uma taxa de até 6% dos estabelecimentos comerciais credenciados para aceitar os cartões dos beneficiários. Essa taxa era dividida: 50% para a Agência de Fomento de Goiás e 50% para a BK Bank.
A cobrança de uma porcentagem sobre as transações, que visava cobrir custos operacionais, acabou por onerar os comerciantes, que muitas vezes já operam com margens apertadas. Em 2024, o Governo de Goiás decidiu contratar uma nova instituição financeira. A divisão da taxa foi alterada, com 75,6% destinados à Agência de Fomento e 24,4% para a nova fintech. Apesar da mudança, os repasses de saldos remanescentes para a BK Bank prosseguiram até agosto de 2025, o que coincide com a deflagração da Operação Carbono Oculto, reforçando a persistência da relação financeira mesmo diante de um cenário de crescente investigação.
Repercussão e Posicionamento Oficial
O caso ganha contornos adicionais pelo fato de Ronaldo Caiado ter deixado o Governo de Goiás em 31 de março deste ano para se candidatar à Presidência da República. A revelação de que sua gestão utilizou uma fintech investigada por ligação com o PCC pode gerar repercussões significativas em seu cenário político.
Em resposta às acusações, o Governo de Goiás afirmou que uma nova instituição foi contratada e que adotou medidas judiciais após a Operação Carbono Oculto. A gestão estadual também justificou a permanência dos repasses à BK Bank até agosto de 2025 como sendo referentes a saldos remanescentes. A BK Bank, por sua vez, não se manifestou sobre as acusações até o momento. Para mais informações sobre o papel do Coaf em investigações financeiras, clique aqui.
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