Dezesseis anos após o desaparecimento e morte da advogada Mércia Nakashima, um dos casos de maior repercussão nacional, o ex-policial militar e ex-advogado Mizael Bispo de Souza, de 56 anos, volta aos holofotes com o lançamento de um livro. Na obra, ele reitera sua inocência e nega qualquer participação no assassinato da ex-namorada, ocorrido na Grande São Paulo. A publicação reacende o debate sobre o crime que chocou o país e gerou um julgamento amplamente acompanhado pela mídia.
Mizael Bispo, que cumpre o restante de sua pena em regime aberto desde 2023, utiliza o livro para apresentar sua versão dos fatos, contestando as investigações e a condenação que o levaram à prisão. A iniciativa, que coincide com o aniversário de 16 anos do desaparecimento de Mércia, ocorrido em 23 de maio de 2010, traz à tona novamente as complexidades e controvérsias do caso.
O crime, a investigação e as condenações
O desaparecimento de Mércia Nakashima, então com 28 anos, em 23 de maio de 2010, após sair da casa de sua avó em Guarulhos, mobilizou as autoridades. Quase três semanas depois, em 10 de junho, seu carro foi encontrado submerso em uma represa em Nazaré Paulista, no interior do estado. O corpo da advogada foi localizado no dia seguinte, 11 de junho, confirmando o trágico desfecho.
A investigação da Polícia Civil apontou que Mércia foi atraída por Mizael, baleada e, em seguida, morreu afogada após o veículo ser lançado na represa. O principal motivo do crime, segundo as autoridades, seria a não aceitação de Mizael pelo fim do relacionamento. Uma prova crucial para a condenação foi a descoberta de uma alga específica no sapato de Mizael, que o ligava diretamente à cena do crime na represa.
Mizael Bispo foi preso em 2012, após se entregar à polícia, e condenado em 2013 a mais de 20 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado. A pena foi posteriormente aumentada para mais de 22 anos em 2017. O crime, à época, não era tipificado como feminicídio, categoria criada em 2015 e que hoje prevê penas de até 40 anos.
O vigia Evandro Bezerra da Silva também foi implicado como cúmplice. Preso em 2010, solto e detido novamente em 2012, ele chegou a confessar o crime antes de se retratar. Em 2013, foi condenado a 17 anos de prisão e, assim como Mizael, foi solto em 2022 para cumprir o restante da pena em regime aberto.
A versão do condenado e as controvérsias do livro
Mesmo após a condenação, Mizael Bispo sempre manteve sua versão de inocência, agora detalhada no livro intitulado “Na Cova dos Leões – Uma história de luta, sofrimento, dor e injustiça! Nada está perdido”. A obra, com cerca de 140 páginas, foi escrita durante seu período de reclusão e está disponível apenas em formato digital, vendida por R$ 16 na plataforma Amazon.
Em um vídeo ao qual o g1 teve acesso, Mizael descreve o livro como uma “história real e sem ficção”, prometendo uma narrativa “sem manipulação e sem cortes”. A obra foi supervisionada por seu advogado, Samir Haddad Júnior, que sugeriu o título inspirado na história bíblica de Daniel, reforçando a ideia de uma injustiça sofrida.
No livro, Mizael apresenta sua própria interpretação dos acontecimentos, mas com uma peculiaridade: ele altera os nomes dos personagens, justificando a medida para “eximir de possíveis crimes contra a honra”. Assim, Mércia se torna “Márcia”, o irmão da vítima, Márcio Nakashima, vira “Marcos”, o delegado Antônio de Olim é “doutor Roolim”, o promotor Rodrigo Merli aparece como “Alexandre Merli”, e Evandro Bezerra é citado como “Edvan Bezerra”.
O autor também levanta suspeitas sobre outras pessoas, sugerindo que indivíduos que conheciam ou tiveram contato com Mércia não teriam sido devidamente investigados. Ele questiona: “Será que a Márcia estava relacionando-se com alguém e tal pessoa teria percebido que a mesma estava reaproximando-se de mim e preparou-lhe uma armadilha?”. Mizael ainda critica a condução da investigação, o Ministério Público e a imprensa, afirmando que o livro visa “esclarecer fatos não divulgados pela imprensa marrom”.
Repercussão e reações das autoridades
O lançamento do livro por Mizael Bispo inevitavelmente reacende o debate público sobre o caso Mércia Nakashima, um dos mais emblemáticos do país, que teve seu julgamento acompanhado em tempo real por todo o Brasil. As autoridades citadas na reportagem, cujos nomes foram alterados no livro de Mizael, reagiram à publicação.
O promotor Rodrigo Merli Antunes, responsável pela acusação, classificou Mizael como um “belo dum mentiroso, contador da Carochinha”, e alertou para a possibilidade de novos processos por calúnia e difamação. “Que ele publique o que quiser. Se conseguir uma editora que compre a sua ideia, é claro! Mas, como no Brasil os criminosos costumam ter bastante espaço, capaz que consiga. Que ele ao menos não reclame depois de ser eventualmente processado por eventuais calúnias e difamações. Correrá o risco de se tornar réu novamente”, afirmou Merli.
O delegado Antônio de Olim, que conduziu as investigações e hoje é deputado estadual, também refutou as alegações de Mizael. “Eu acho que ele é um belo dum mentiroso, contador da Carochinha: nunca teve suspeitos presos que confessaram o crime”, declarou Olim, acrescentando que, se o crime ocorresse hoje, seria enquadrado como feminicídio, com uma pena muito mais severa. “Se fosse hoje, ele iria apodrecer na cadeia.”
A equipe de reportagem tentou contato com Márcio Nakashima, irmão da vítima, para obter seu posicionamento sobre o lançamento do livro, mas não houve retorno até a última atualização desta matéria. A controvérsia em torno da autoria do crime, mesmo após a condenação judicial, continua a gerar discussões e a manter o caso Mércia Nakashima na memória coletiva brasileira.
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