PUBLICIDADE

Maternidade e ciência: o desafio da permanência para pesquisadoras no Brasil

Gustavo Diehl/UFRGS" title="Gustavo Diehl/UFRGS">
Gustavo Diehl/UFRGS" title="Gustavo Diehl/UFRGS">

Apesar de o Brasil formar mais doutoras do que doutores há mais de duas décadas, a presença feminina em posições de destaque na academia ainda é uma minoria. Mulheres representam uma parcela menor entre professores de graduação e pós-graduação e recebem apenas um terço das bolsas de produtividade, que são destinadas a cientistas com maior reconhecimento na carreira. Esse fenômeno, conhecido como “efeito tesoura”, descreve o corte progressivo de mulheres à medida que avançam na carreira científica, e seu impacto ainda mais acentuado sobre as mães tem sido objeto de debate mais recente.

A pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fernanda Staniscuaski, vivenciou essa realidade em primeira mão. Já consolidada como docente e pesquisadora, a decisão de se tornar mãe a levou a uma desaceleração profissional que se estendeu além do esperado, revelando um ciclo de difícil rompimento. “Quanto menos a mulher produz, menos ela vai ter oportunidade para ganhar financiamento, para conseguir bolsas para orientandos e obviamente isso vai fazer com que ela produza menos ainda. Existe essa pausa por causa da maternidade e ela tem que ser reconhecida. Mas a gente precisa das condições de retorno”, afirma Staniscuaski, destacando a necessidade de apoio para o retorno à plena atividade.

O “Efeito Tesoura” e o Impacto da Maternidade na Academia

A experiência pessoal de Fernanda Staniscuaski a levou a fundar, em 2016, o movimento Parents in Science. Ao lado de outras seis mães e um pai, a iniciativa nasceu da percepção de que suas angústias eram compartilhadas por muitas outras cientistas. O grupo, que completa uma década em 2026 com mais de 90 cientistas associados, em sua maioria mulheres, busca debater a parentalidade entre pesquisadores e, principalmente, preencher a lacuna de dados oficiais sobre o número de docentes e pesquisadores com filhos no Brasil.

A ausência de uma contagem oficial impede a medição precisa do impacto da maternidade na carreira científica, mas os números do “efeito tesoura” já são um forte indicativo. Fernanda Staniscuaski ressalta que os padrões desiguais da sociedade, onde as mães carregam o ônus do cuidado, são reproduzidos no ambiente acadêmico. “Existe uma mudança cultural em andamento, com uma participação maior dos pais, mas a gente está longe de ser uma sociedade onde o cuidado é totalmente dividido, não só entre mães e pais, mas como algo coletivo”, complementa a fundadora do Parents in Science.

Dados Revelam Desafios na Pós-Graduação

Um documento recente publicado pelo Parents in Science analisou a entrada e permanência na docência de pós-graduação, um processo que exige credenciamento e reavaliação periódica baseada na produtividade (artigos, congressos, orientações). O levantamento, que incluiu dados de cerca de mil docentes, revelou diferenças significativas entre pais e mães, especialmente nos casos de descredenciamento.

Entre os pais, 43,7% deixaram o programa por iniciativa própria, enquanto 37,5% foram descredenciados por perda de produtividade. Já entre as mães, a situação se inverte: apenas 24,6% saíram a pedido, e impressionantes 66,1% foram descredenciadas por não apresentarem a produção mínima exigida. A dificuldade de reinserção no sistema após o descredenciamento também é maior para as mães: 38% delas não conseguiram retornar após a perda de produtividade, contra 25% dos pais. Para aqueles que saíram a pedido, 25% das mães não retornaram, comparado a apenas 7,1% dos pais.

Fernanda Staniscuaski enfatiza que a questão de gênero se cruza com outras barreiras, como a raça. “As mulheres pretas, pardas e indígenas continuam sendo o grupo mais sub-representado. Então, a gente precisa cruzar as diferentes barreiras que existem, como a questão das mães de filhos com deficiência, que também ocupam menos espaços”, destaca, apontando para a complexidade do problema.

Barreiras Desde a Graduação e Redes de Apoio

Os obstáculos para a maternidade na ciência não se manifestam apenas em estágios avançados da carreira. A assistente social Cristiane Derne, que atualmente faz mestrado em Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/Rio), enfrentou dificuldades desde a graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), já sendo mãe.

Moradora de Magé, na Baixada Fluminense, Cristiane precisava se deslocar diariamente para o Rio após o trabalho, chegando em casa à meia-noite. “Tem a cobrança de horas complementares, estágio, projeto de extensão… às vezes o filho adoece e a gente precisa faltar, às vezes não tem com quem deixar. Eu me deparei com muitas meninas que acabaram desistindo”, relata. O auxílio-educação de R$ 385 da UFRJ, concedido apenas até a criança completar seis anos, não a contemplava. O apoio crucial veio do coletivo de mães da UFRJ, que ofereceu informações sobre direitos e acolhimento emocional, permitindo que ela seguisse seus objetivos.

Essa vivência inspirou Cristiane a aprofundar o tema em seus estudos. Seu trabalho de conclusão de curso analisou as políticas da UFRJ e seu impacto nas mulheres do coletivo, e agora, no mestrado, ela pesquisa esses coletivos em nível nacional, transformando sua experiência em conhecimento acadêmico e advocacy.

Políticas e o Caminho para a Permanência

Em uma iniciativa similar, o Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade publicou recentemente o Atlas da Permanência Materna. Este compilado detalha as políticas de permanência oferecidas pelas universidades federais, identificando a assistência financeira como a principal medida existente. No entanto, o estudo revela que ainda há um longo caminho a percorrer para garantir que as mães cientistas tenham as condições necessárias para acessar, permanecer e prosperar em suas carreiras, sem que a maternidade se torne um fator de exclusão.

Acompanhe o M1 Metrópole para ficar por dentro das discussões mais relevantes sobre educação, ciência e sociedade. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade, análises aprofundadas e contextualizadas para você entender os temas que impactam o seu dia a dia e o futuro do Brasil.

Leia mais

PUBLICIDADE