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Arquivos inéditos revelam rede de espionagem da ditadura brasileira no Cone Sul

jornalista Juliana Dal Piva/ICL Notícias/Arquivo Cyro Etchegoyen
Reprodução Folha

Documentos inéditos, recentemente revelados, lançam nova luz sobre a atuação da ditadura brasileira em países vizinhos durante os anos de chumbo. Os papéis, obtidos pelo portal ICL Notícias, detalham a existência de uma sofisticada rede de espionagem e infiltração que se estendia por Argentina, Uruguai e Chile, com o objetivo de monitorar exilados políticos e influenciar regimes locais.

As revelações, que serão a base de um documentário, expõem a profundidade da cooperação entre os regimes autoritários do Cone Sul e o papel ativo de agentes brasileiros na repressão regional. A descoberta sublinha a complexidade e a abrangência das operações de inteligência da época, que iam muito além das fronteiras nacionais.

Arquivos inéditos detalham a rede de espionagem da ditadura brasileira

Os documentos, que incluem relatórios e cadernos de contabilidade do coronel Cyro Etchegoyen, figura central do Centro de Informações do Exército (CIE), indicam que pelo menos seis informantes do regime militar brasileiro atuaram ativamente em território estrangeiro. Entre eles, destacam-se figuras com acesso privilegiado a estruturas de poder dos países vizinhos.

Um dos agentes infiltrados ocupava uma posição de chefia no Serviço de Contrainformações do Ministério da Defesa do Chile. Sua atuação foi crucial na colaboração com o CIE para a promoção do golpe que derrubou o presidente socialista Salvador Allende em 1973, um marco na história política chilena e regional. No Uruguai, outro colaborador era um integrante de nível superior da Polícia Civil, evidenciando a penetração em órgãos de segurança locais.

Métodos de infiltração e objetivos da operação

A rede de informantes era composta por uma variedade de perfis, incluindo dirigentes de grupos paramilitares de extrema direita, membros de órgãos de repressão dos países vizinhos e até mesmo imigrantes indocumentados. Essa diversidade de agentes permitia ao regime brasileiro uma capilaridade e um alcance consideráveis em suas operações de inteligência.

Um relatório de 68 páginas da seção de contrainformações do CIE, liderada por Etchegoyen, revela os métodos empregados. Entre as táticas, estava a cooptação de integrantes de organizações opositoras, que eram transformados em agentes duplos infiltrados. Essa estratégia visava desmantelar movimentos de resistência de dentro para fora, além de obter informações sensíveis.

Os objetivos da colaboração com os infiltrados no exterior eram múltiplos e estratégicos. Incluíam o monitoramento das atividades de exilados brasileiros, a obtenção de informações sobre a política interna dos países vizinhos e a troca de dados com órgãos de repressão locais sobre militantes estrangeiros que pudessem ter conexões com o Brasil. Essa coordenação regional da repressão era uma característica marcante dos regimes militares da época.

Registros financeiros e o monitoramento na Argentina

O caderno de contabilidade de Cyro Etchegoyen, que abrange o período de 1969 a 1974, oferece um vislumbre das despesas e logística por trás dessas operações secretas. Os registros incluem pagamentos de passagens para Buenos Aires em setembro de 1973 e despesas com a compra de revólveres destinados a chilenos em fevereiro de 1974. Esses detalhes financeiros confirmam a materialidade das ações e o investimento do regime na manutenção de sua rede.

Na Argentina, a atuação dos infiltrados se concentrava em grupos de extrema direita. Um agente teria fornecido informações cruciais sobre o estado de saúde do presidente Juan Domingo Perón, que viria a falecer em julho de 1974, e sobre a influência que o general Alejandro Agustín Lanusse, último ditador argentino até então, mantinha sobre o Exército local. O monitoramento de figuras políticas de alto escalão demonstra a importância estratégica que a ditadura brasileira atribuía à estabilidade e alinhamento dos governos vizinhos.

A busca pela verdade e o legado da repressão

As descobertas do ICL Notícias não apenas enriquecem a compreensão histórica sobre o período da ditadura brasileira, mas também reforçam a importância da investigação jornalística na revelação de fatos ocultos. A série de reportagens culminará no documentário “Bandidos de Farda”, coordenado pela jornalista Juliana Dal Piva, com estreia marcada para 17 de maio e disponibilização gratuita no YouTube do ICL.

Essas revelações são vitais para a memória coletiva e para o debate sobre os impactos duradouros da repressão no Brasil e no Cone Sul. Elas servem como um lembrete da necessidade contínua de transparência e responsabilização, contribuindo para que as novas gerações compreendam a complexidade e as consequências de um período sombrio da história. Para aprofundar-se nas investigações do portal, você pode visitar ICL Notícias.

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