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Secretário de São Caetano pede exoneração após falas polêmicas sobre inclusão no esporte

tes, Lazer e Juventude da Prefeitura de São Caetano do Sul, Mauro Roberto Chekin
Reprodução G1

O cenário político de São Caetano do Sul foi agitado nesta sexta-feira (8) pela exoneração de Mauro Roberto Chekin, então secretário de Esportes, Lazer e Juventude. A decisão veio após a repercussão negativa de suas declarações durante uma audiência pública na Câmara Municipal, onde se referiu à inclusão de pessoas com deficiência no esporte como um “problema” e expressou dificuldades em trabalhar com esse público. O caso, que rapidamente ganhou destaque, levou à abertura de um inquérito pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e gerou forte repúdio de entidades nacionais.

As falas de Chekin, proferidas em 29 de abril de 2026, durante a audiência sobre o orçamento da Secretaria para o exercício de 2025, levantaram sérias questões sobre a abordagem da administração pública em relação à inclusão. A polêmica reacendeu o debate sobre o capacitismo e a necessidade de preparo e compromisso dos gestores públicos com as políticas de acessibilidade e direitos das pessoas com deficiência.

Declarações controversas em audiência pública

As afirmações que culminaram na exoneração do secretário ocorreram durante uma sessão da Câmara Municipal, após questionamentos da vereadora Bruna Biondi (PSOL). Mauro Roberto Chekin descreveu a inclusão social como um “problema” que exige “muito cuidado com os esportes”. Ele especificou sua preocupação com pessoas autistas e outras deficiências, afirmando: “Com relação ao autista, nós temos um problema muito grande com autista e qualquer [pessoa com deficiência]”.

O secretário chegou a relatar um episódio envolvendo uma mãe que buscava incluir a filha em aulas de natação, mencionando o uso de fraldas pela criança e a necessidade de fraldas específicas para natação. Além disso, Chekin descreveu a dificuldade da menina com o barulho no início da aula e expressou sua percepção de que nem todos os profissionais estariam capacitados para atuar com inclusão. Ele compartilhou uma experiência pessoal da faculdade, declarando que sua “condição psicológica e física é muito frágil para esse tipo de coisa” e que não conseguiria atuar na área. O secretário ainda argumentou que, embora a inclusão seja um dever do Estado, não seria um dever seu como “pessoa física” obrigar profissionais a trabalhar com esse público.

O pedido de exoneração e o reconhecimento do erro

Diante da repercussão negativa e da pressão pública, Mauro Roberto Chekin pediu exoneração do cargo. Em nota oficial, ele reconheceu o “erro de abordagem do tema inclusão no esporte” e pediu “sinceras desculpas pelo ocorrido”. Chekin reafirmou seu compromisso como professor de Educação Física de carreira da municipalidade e declarou que buscará aperfeiçoamento profissional relacionado à inclusão. A nota também incluiu agradecimentos ao prefeito Tite Campanella pela oportunidade, reforçando sua intenção de continuar trabalhando pelo esporte.

Ministério Público abre inquérito para investigar capacitismo

A gravidade das declarações levou o Ministério Público de São Paulo a aceitar a denúncia protocolada por parlamentares do PSOL, incluindo a deputada federal Sâmia Bomfim e a vereadora Bruna Biondi. O MP-SP formalizou a abertura de um inquérito para apurar “eventual prática de discriminação”, “capacitismo institucional” e “omissão de políticas públicas inclusivas” no âmbito da Secretaria Municipal de Esporte, Lazer e Juventude de São Caetano do Sul. A investigação visa garantir que os direitos das pessoas com deficiência sejam respeitados e que as políticas públicas sejam efetivamente inclusivas, conforme a legislação brasileira.

Repúdio nacional e o histórico paralímpico de São Caetano

As falas do ex-secretário provocaram uma onda de repúdio em nível nacional. O Ministério do Esporte divulgou uma nota classificando as declarações como “profundamente capacitistas” e incompatíveis com os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana. A pasta reforçou que o esporte deve ser um espaço de inclusão, diversidade, respeito e dignidade para todos, e que o poder público tem o dever de garantir o acesso e a participação plena das pessoas com deficiência. O Ministério também se colocou à disposição da Prefeitura de São Caetano do Sul para oferecer orientações técnicas e materiais informativos sobre inclusão.

O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) também se manifestou, repudiando as falas como “discriminatórias e inadmissíveis”. O CPB ressaltou o papel transformador do esporte na promoção da cidadania e da igualdade de oportunidades. A nota do Comitê destacou um ponto crucial: São Caetano do Sul possui uma história rica e vinculada ao Movimento Paralímpico nacional, tendo sido um dos polos de treinamento das Seleções Brasileiras de atletismo e natação paralímpicos. A cidade também abriga diversos atletas paralímpicos e firmou parceria com a área de Educação Paralímpica do CPB para capacitação de professores. Esse histórico torna as declarações do ex-secretário ainda mais contraditórias e preocupantes, desconsiderando avanços históricos e desrespeitando a comunidade paralímpica.

A resposta da Prefeitura de São Caetano do Sul

Em meio à controvérsia, a Prefeitura de São Caetano do Sul emitiu uma nota afirmando seu “compromisso histórico” com políticas públicas de inclusão. O município destacou investimentos em programas e ações voltadas às pessoas com deficiência nas áreas de saúde, educação, esporte e assistência social, citando a inauguração do Complexo Unificado de Inclusão, Desenvolvimento, Apoio e Reabilitação (Cuidar), o Núcleo de Apoio à Educação Inclusiva (NAEI) e parcerias com instituições como APAE, AACD e o próprio Comitê Paralímpico Brasileiro.

A administração municipal reconheceu que “a pauta da inclusão exige evolução constante” e declarou que “erros, apesar de imperdoáveis, são compreensíveis, dada a complexidade e importância desta pauta”. A resposta da prefeitura busca reafirmar o posicionamento da cidade em relação à inclusão, ao mesmo tempo em que tenta contextualizar o incidente.

O episódio em São Caetano do Sul serve como um lembrete contundente da vigilância necessária para garantir que os princípios da inclusão e do respeito à dignidade humana sejam efetivamente aplicados em todas as esferas da gestão pública. A sociedade e as instituições continuam atentas para que declarações capacitistas sejam repudiadas e que políticas públicas garantam a plena participação de todos.

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