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Semaglutida: novo estudo sugere redução do consumo excessivo de álcool em pacientes com obesidade

9.jan.25/Folhapress
9.jan.25/Folhapress

Uma pesquisa recente publicada na prestigiada revista científica The Lancet trouxe à tona um achado promissor no campo da saúde: o uso semanal de semaglutida, princípio ativo de medicamentos conhecidos como Ozempic e Wegovy, demonstrou uma redução significativa nos episódios de consumo excessivo de álcool. O estudo focou em pacientes que enfrentam o transtorno por uso de álcool e também convivem com a obesidade, abrindo novas perspectivas para o tratamento de uma condição que afeta milhões globalmente.

Os resultados desse ensaio clínico randomizado, divulgado nesta quinta-feira (30), indicam que a substância, já consagrada no tratamento da obesidade e diabetes tipo 2, pode ter um papel expandido. A descoberta é particularmente relevante considerando a escassez de opções terapêuticas aprovadas para o transtorno por uso de álcool, que representa um grave problema de saúde pública e contribui para cerca de 5% das mortes anuais em todo o mundo.

Detalhes do ensaio clínico e resultados promissores

O estudo, conduzido no Mental Health Center Copenhagen, na Dinamarca, entre junho de 2023 e fevereiro de 2025, envolveu 108 participantes. A amostra foi composta por 53 mulheres e 55 homens, com uma idade média de 52 anos, todos com diagnóstico de transtorno por uso de álcool e obesidade (IMC igual ou superior a 30 kg/m²).

Os voluntários foram divididos igualmente em dois grupos: um recebeu injeções semanais de 2,4 mg de semaglutida, enquanto o outro recebeu placebo. Além da medicação, todos os participantes tiveram acesso a até dez sessões de terapia cognitivo-comportamental, um componente importante no tratamento da dependência.

Os dados revelaram uma melhora notável no grupo tratado com semaglutida. No início do estudo, os participantes registravam, em média, 17 dias de consumo excessivo de álcool nos 30 dias anteriores. Após seis meses, esse número caiu drasticamente para cerca de cinco dias no grupo da semaglutida, em contraste com uma redução para nove dias no grupo placebo. O consumo total de álcool também apresentou uma queda expressiva, passando de aproximadamente 2.200 gramas por mês para cerca de 650 gramas no grupo tratado, enquanto no grupo controle a redução foi para 1.175 gramas.

O potencial da semaglutida no tratamento do transtorno por uso de álcool

Os achados deste estudo reforçam a possibilidade de uma indicação expandida para a semaglutida, o que poderia impactar positivamente a vida de milhões de pessoas. Atualmente, a agência reguladora americana de alimentos e medicamentos (FDA) aprovou apenas três medicamentos para o tratamento do transtorno por uso de álcool, o que sublinha a urgência por novas alternativas terapêuticas.

Em fevereiro de 2025, um estudo anterior, de menor escala (48 participantes e dose mais baixa), publicado na JAMA Psychiatry, já havia apontado uma redução de aproximadamente 30% no consumo de álcool nos dias em que os participantes bebiam. O novo ensaio clínico, com sua metodologia randomizada e maior duração, oferece evidências mais robustas para essa potencial aplicação.

Financiamento, efeitos adversos e considerações éticas

É importante notar que o estudo foi parcialmente financiado pela Fundação Novo Nordisk, entidade ligada ao fabricante da semaglutida. No entanto, os pesquisadores responsáveis declararam que a empresa não teve qualquer influência no desenho, coleta, análise ou interpretação dos dados, garantindo a independência científica da pesquisa.

Quanto aos efeitos adversos, os mais comuns foram de natureza gastrointestinal, alinhados com o perfil conhecido da semaglutida. Náuseas afetaram 57% dos participantes no grupo da semaglutida, contra 7% no grupo placebo; constipação foi relatada por 35% contra 17%; e refluxo por 28% contra 2%. Esses sintomas foram descritos como transitórios e de intensidade leve a moderada. Quatro participantes do grupo semaglutida abandonaram o estudo devido a efeitos colaterais.

Limitações e o caminho para futuras pesquisas

Apesar dos resultados encorajadores, os autores do estudo listam limitações relevantes que precisam ser consideradas. A amostra é relativamente pequena e a população estudada foi predominantemente branca. Além disso, a exigência de um IMC igual ou superior a 30 kg/m² restringe os achados a pacientes com obesidade, excluindo uma parcela significativa de pessoas com transtorno por uso de álcool que não se enquadram nesse critério.

Outra limitação importante é que o estudo não coletou dados após o encerramento do tratamento, o que impede avaliar a sustentabilidade dos efeitos a longo prazo. Essas ressalvas indicam a necessidade de pesquisas futuras mais amplas, com populações mais diversas e acompanhamento estendido, para confirmar e generalizar esses achados.

Em suma, a semaglutida surge como uma esperança para o tratamento do consumo excessivo de álcool, especialmente em pacientes com obesidade. Contudo, a comunidade científica aguarda estudos mais robustos para solidificar essas evidências e, quem sabe, abrir caminho para uma nova ferramenta no combate a essa complexa condição de saúde. Continue acompanhando o M1 Metrópole para ficar por dentro das últimas novidades em ciência, saúde e outros temas relevantes que impactam o seu dia a dia.

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