Em um debate que desafia concepções populares sobre a evolução humana, a bióloga e neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da Universidade Vanderbilt (EUA), critica veementemente as chamadas explicações pseudo-evolutivas. Segundo a pesquisadora, a ideia de que características como calvície, barba, depressão ou cólica menstrual existem porque trazem alguma vantagem adaptativa é falaciosa e carece de base científica.
A discussão central de Herculano-Houzel reside na compreensão equivocada da teoria de Charles Darwin e na popularização de conceitos simplistas, como a “sobrevivência do mais apto”. Ela argumenta que a evolução não é um processo linear de aperfeiçoamento, mas sim um fenômeno complexo onde a variação é a norma, muitas vezes impulsionada por probabilidades genéticas e energéticas, e não por uma vantagem intrínseca.
A origem das explicações evolutivas simplificadas
A neurocientista aponta que a confusão começa com a expectativa disseminada de que a evolução é sinônimo de aperfeiçoamento e adaptação. Essa visão, embora popular, distorce a proposta original de Darwin, que focava em como as variações surgem na natureza. Sem o conhecimento da biologia molecular que viria depois, Darwin, segundo Herculano-Houzel, postulou que “se variações acontecem, é porque é vantajoso variações acontecerem” – um argumento que ela classifica como circular.
A frase “sobrevivência do mais apto”, cunhada por Herbert Spencer e não por Darwin, solidificou essa interpretação simplista. Mesmo com os avanços da biologia demonstrando que as variações são a regra e ocorrem de forma probabilística (como a interação de moléculas), o hábito de buscar uma “vantagem” adaptativa para tudo o que existe persiste no senso comum e, por vezes, até em círculos acadêmicos, como a própria pesquisadora relata ter presenciado.
Calvície e barba: meras variações, não vantagens
Ao abordar exemplos específicos, Herculano-Houzel desmistifica a busca por uma “vantagem adaptativa” para a calvície ou a presença de barba. Ela explica que nascer com cabelos é uma característica biológica da espécie humana. A calvície, por sua vez, descreve o que pode ou não acontecer com o envelhecimento, sendo apenas uma variação individual.
Da mesma forma, a densidade da barba é resultado de uma combinação de genética e níveis de testosterona. Não há, portanto, uma “vantagem” evolutiva inerente em ser calvo ou barbudo. A diversidade de aparências, ela conclui, demonstra que “calvo ou cabeludo, barbado ou não, tem gosto e lugar pra todo mundo”, sem que uma condição seja superior à outra do ponto de vista evolutivo.
Depressão e autismo: a falácia da adaptação benéfica
A neurocientista estende sua crítica a condições mais complexas e sensíveis, como o autismo e a depressão. Ela refuta a ideia de que a depressão, por exemplo, poderia ser “vantajosa” por levar à ruminação, supostamente ajudando a resolver problemas. Herculano-Houzel questiona a falta de evidências para tal benefício, apontando que a ruminação, na verdade, é paralisante e prejudicial.
Essas condições, assim como a calvície, são vistas como variações ainda viáveis dentro das características da espécie humana. Muitas outras variações não são viáveis, resultando na perda de embriões e fetos. A existência da depressão, portanto, não se deve a uma função adaptativa, mas sim à complexa interação entre variação genética e as “vicissitudes da existência”.
A importância de entender a evolução e buscar soluções
A mensagem central de Suzana Herculano-Houzel é clara: a evolução é um fato científico, e a depressão também é uma realidade. No entanto, a teoria que explica esses fatos deve ser rigorosa e não cair em argumentos circulares ou pseudocientíficos. Ela enfatiza que não devemos aceitar explicações de que nossa depressão ou cólica menstrual são “adaptativas”.
Pelo contrário, a ciência oferece caminhos para uma vida melhor. A existência de remédios e tratamentos para condições como a depressão é um testemunho do progresso humano em mitigar o sofrimento, independentemente de uma suposta “vantagem” evolutiva. Compreender a evolução de forma correta nos permite focar em soluções reais para os desafios da saúde e do bem-estar.
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