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Ornamento: a frieza narrativa de Juan Cárdenas em romance sobre droga do prazer

Ornamento: a frieza narrativa de Juan Cárdenas em romance sobre droga do prazer

O dilema do prazer em uma prosa contida

O escritor colombiano Juan Cárdenas, conhecido por sua habilidade em dissecar as tensões sociais da América Latina, traz ao Brasil uma obra que desafia as expectativas do leitor. Ornamento, romance originalmente publicado em 2015 e que chega agora às prateleiras nacionais pela editora DBA, parte de uma premissa instigante: a descoberta de um princípio ativo, extraído de uma flor usada por lavadeiras das cordilheiras, capaz de induzir um êxtase coletivo exclusivo ao público feminino.

A substância, cuja eficácia é anulada pela testosterona, torna-se o epicentro de um experimento científico conduzido por um médico cínico. O protagonista, que narra a trama em formato de diário, observa quatro voluntárias, mas é a “paciente número 4” quem rompe a barreira do distanciamento clínico. Enquanto o médico tenta manter o controle, a mulher desafia seu elitismo e introduz uma complexidade que o narrador parece incapaz de processar plenamente.

Entre o laboratório e a crítica social

A força do livro reside na tensão entre a aridez do narrador e a vivacidade da paciente número 4. O médico, representante de uma elite intelectual e tecnocrata, vê na droga uma mercadoria, uma forma de “arte feminista e igualitária” que encontra seu único espaço de legitimação no mercado. Essa visão fria contrasta com o potencial disruptivo da substância, que promete libertar mulheres antes presas ao ciclo da necessidade material.

O autor utiliza o triângulo amoroso formado pelo médico, sua esposa — uma artista plástica que busca a “poética da inação” — e a voluntária para questionar o conceito de ornamento. O título da obra provoca o leitor a refletir sobre o que é supérfluo: seria o encanto da droga, a beleza desprovida de utilidade ou a própria pretensão estética da elite que o médico tanto despreza?

A dualidade entre a forma e o conteúdo

Apesar da premissa fascinante, Ornamento sofre com a escolha estilística de Cárdenas. Ao optar por uma prosa excessivamente seca e lacunar, o autor acaba por distanciar o leitor dos dilemas existenciais que a trama propõe. O narrador, propositalmente desinteressante, muitas vezes impede que a carga emocional da história floresça, deixando o leitor com a sensação de que falta algo para preencher as entrelinhas.

No entanto, o romance brilha nos momentos em que o médico silencia. As elocubrações da paciente número 4 e as descrições da paisagem que contrapõem o discurso estéril do laboratório oferecem vislumbres de uma obra mais potente. É um exercício literário que, embora frio em sua execução, levanta questões fundamentais sobre como o prazer e a alegria são mercantilizados em sociedades contemporâneas.

Relevância e impacto literário

A obra de Cárdenas é um espelho das contradições latino-americanas, onde o passado colonial e o presente liberal se fundem em uma névoa de incertezas. Ao comparar o médico aos traficantes dos anos 80, o autor sugere que a violência das armas foi substituída pela violência silenciosa da ciência e do mercado. É uma leitura que exige paciência, mas que recompensa quem busca entender as engrenagens invisíveis do poder e do desejo.

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