O cantor e compositor Benito di Paula, que faleceu na noite de domingo (18), aos 84 anos, recebeu uma marcante reverência pública recentemente. Durante o Carnaval de São Paulo em 2025, a escola de samba Águia de Ouro transformou a rica produção autoral do músico fluminense em tema central de sua apresentação no Sambódromo do Anhembi, garantindo um dos momentos mais comoventes da folia paulistana.
Com o enredo intitulado “Em Retalhos de Cetim, a Águia de Ouro do Jeito que a Vida Quer”, a agremiação da Pompeia optou por destacar o cancioneiro que atravessou décadas na música popular brasileira. A condução do samba-enredo na passarela ficou sob a responsabilidade do sambista Xande de Pilares, admirador confesso da obra de Benito e intérprete de várias de suas composições ao longo da carreira solo.
Benito di Paula e a escolha de priorizar a música sobre a avenida
A concepção estética da apresentação nasceu de um diálogo direto entre a liderança artística da agremiação e o próprio compositor. Durante a fase de pesquisa e elaboração do desfile, o carnavalesco André Machado esteve na residência de Benito di Paula para detalhar o projeto e ouvir as impressões do artista.
Na ocasião, o homenageado fez uma recomendação precisa sobre a linha narrativa a ser seguida na passarela do samba. Machado recordou que o músico pediu expressamente para que a agremiação não contasse uma biografia formal: “Não vamos falar sobre a minha história, vamos falar sobre a minha música”, orientou Benito, indicando que o foco deveria ser a força de seu repertório lírico e melódico.
A resposta da escola foi traduzida em elementos cenográficos detalhados. No primeiro carro alegórico, por exemplo, diversos retalhos de cetim foram costurados manualmente pela equipe do barracão, compondo uma representação literal e poética do clássico lançado nos anos 1970. Ao longo das alas, faixas temáticas e fantasias exploravam clássicos inesquecíveis como “Do Jeito que a Vida Quer” e outras pérolas de sua discografia.
Parceria familiar no carro Meu Amigo Charlie Brown
O ponto alto da passagem da Águia de Ouro pelo Anhembi aconteceu com a presença de Benito no topo do carro alegórico batizado de “Meu Amigo Charlie Brown”. Vestindo terno vibrante e com a postura carismática que sempre exibiu nos palcos, o cantor desfilou ao lado de seu filho, o músico e ator Rodrigo Vellozo.
A cumplicidade entre pai e filho na passarela refletiu uma parceria profissional consolidada ao longo dos últimos anos. Em 2020, Rodrigo apresentou o projeto “O Mestre-sala da Minha Saudade”, que reuniu participações de Benito e prestou homenagem a André, irmão de Rodrigo falecido em 2019. Já em 2021, em comemoração aos 80 anos do mestre do piano, ambos lançaram o disco conjunto “O Infalível Zen”, com 13 faixas dedicadas à sonoridade do veterano.
A despedida do criador do samba de esquema novo
O falecimento do cantor ocorreu no Hospital 9 de Julho, na capital paulista, onde ele estava internado em decorrência de complicações geradas por um câncer de próstata. Benito lutava contra a enfermidade havia cerca de um ano.
Batizado como Uday Velloso, o compositor nasceu no município de Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro, no dia 28 de novembro de 1941. Benito consolidou seu nome entre os artistas mais populares e vendidos do país a partir dos anos 1970. Ao introduzir o piano clássico e elementos harmônicos peculiares à cadência do samba tradicional, o músico estruturou uma vertente rítmica única, batizada por entusiastas e críticos como o autêntico “samba de esquema novo”.
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