O caso da soldado Gisele Alves, cujo falecimento em fevereiro chocou o estado de São Paulo, ganhou novos e controversos contornos durante o interrogatório do tenente-coronel Geraldo Neto, seu esposo e réu por feminicídio e fraude processual. Em depoimento à Justiça paulista no dia 5 de outubro, o oficial não apenas defendeu sua tese de suicídio, mas também proferiu acusações e ofensas contra a própria vítima, seus familiares, amigos, testemunhas e até mesmo colegas de farda.
A gravidade das declarações levou o Ministério Público (MP) a solicitar que todos os citados sejam formalmente comunicados, abrindo a possibilidade de ações penais privadas. O episódio ressalta a complexidade e a tensão em torno de um dos casos mais acompanhados pela imprensa e pela sociedade, que aguarda a decisão sobre o júri popular.
Interrogatório Revela Acusações e Ofensas
Durante as mais de oito horas de gravação do depoimento, Geraldo Neto descreveu a soldado Gisele Alves como uma pessoa agressiva, que quebrava objetos e possuía problemas psiquiátricos. Uma das falas mais polêmicas do tenente-coronel foi a crítica à vestimenta de sua esposa. Ele relatou que, cinco dias antes da morte, após uma discussão, Gisele teria usado um “microvestido” para, em sua avaliação, provocar motoboys em frente ao prédio onde moravam.
“Ela estava com o vestido marrom (…) na frente do prédio. Ela está com o vestido marrom tubinho, se ela respirasse, o vestido rasgava. Bem decotado, diga-se de passagem, bem curto. Uns dois palmos acima do joelho”, afirmou Geraldo, detalhando a roupa que Gisele teria usado. O advogado da família de Gisele, José Miguel da Silva Júnior, que atua como assistente de acusação, classificou as declarações como machistas e misóginas. “Ele não respeita a memória da Gisele e não respeita os familiares da Gisele também”, declarou José Miguel, rechaçando a tentativa de desqualificar a vítima.
Controvérsia sobre a Causa da Morte
A principal linha de defesa de Geraldo Neto é a de que Gisele teria tirado a própria vida com um tiro na cabeça, em 18 de fevereiro, no apartamento do casal, após ele concordar com o pedido de separação dela. Contudo, essa versão é veementemente contestada pelos laudos do Instituto de Criminalística (IC), que concluíram ser impossível a hipótese de suicídio diante das provas periciais encontradas no local. O Ministério Público, por sua vez, sustenta que Gisele foi vítima de feminicídio.
Para sustentar sua tese, o tenente-coronel fez uma série de acusações: contra os pais e o ex-marido de Gisele, amigas, uma testemunha protegida, policiais e peritos. Ele alegou ser alvo de uma conspiração para incriminá-lo sem provas e questionou a integridade da investigação. Geraldo Neto está preso preventivamente desde 18 de março, e sua defesa contesta os laudos periciais na tentativa de evitar que o caso seja submetido a júri popular.
Repercussões e Pedidos do Ministério Público
Diante do teor das declarações de Geraldo Neto, a promotora Ingrid Bertolino Braido solicitou à Justiça que todas as pessoas citadas e ofendidas sejam formalmente comunicadas sobre o interrogatório. O objetivo é permitir que elas decidam se desejam entrar com ações penais privadas por injúria, calúnia ou difamação contra o tenente-coronel, buscando indenização por danos morais. O MP ressaltou que Geraldo “proferiu inúmeras ofensas à honra, além de imputar condutas graves (sem qualquer prova) à própria vítima” e “às testemunhas”, bem como a oficiais da Polícia Militar.
Além disso, a Promotoria pediu que a Corregedoria da PM tenha acesso aos vídeos do depoimento para apurar administrativamente as acusações de prevaricação feitas por Geraldo contra oficiais superiores da corporação. A medida visa verificar a veracidade dos ataques e, se for o caso, responsabilizar o acusado em âmbito civil, criminal e administrativo por suas falas. Para mais detalhes sobre o caso, você pode consultar reportagens aprofundadas em g1.globo.com.
A Estratégia da Defesa e os Desdobramentos Legais
A defesa de Geraldo Neto, representada pelo advogado Eugênio Malavasi, continua a contestar os laudos periciais e a tese de feminicídio. O oficial alterou sua versão sobre o momento em que encontrou Gisele baleada, e questionou mensagens extraídas de seu celular, sugerindo que a esposa poderia ter usado o aparelho para escrever algumas conversas. Ele reiterou que Gisele conseguiria alcançar a pistola guardada sobre um guarda-roupa, reforçando a tese de suicídio.
O processo aguarda as manifestações do Ministério Público e da assistência de acusação antes que a Justiça decida se Geraldo Neto será submetido ao Tribunal do Júri. A complexidade das acusações e contra-acusações, somada à divergência entre a versão do réu e as provas periciais, mantém o caso sob intensa atenção, com desdobramentos que podem impactar a carreira e a vida de diversos envolvidos.
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