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Dengue: pacientes do SUS chegam mais graves às Utis, aponta estudo

Dengue: pacientes do SUS chegam mais graves às Utis, aponta estudo
Danilo Verpa - 6.mar.24/Folhapress

Um estudo recente, publicado em agosto no Journal of Critical Care, lança luz sobre uma preocupante disparidade no atendimento a pacientes com dengue no Brasil. A pesquisa revela que indivíduos adultos internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) da rede pública de saúde chegam com quadros clínicos significativamente mais graves do que aqueles atendidos em hospitais privados, mesmo sendo, em média, mais jovens.

Os dados, que abrangem internações entre 2015 e 2024, apontam para uma realidade onde a urgência e a complexidade dos casos na rede do Sistema Único de Saúde (SUS) exigem intervenções mais intensivas desde o primeiro dia de internação, elevando o risco de desfechos desfavoráveis.

A gravidade dos casos no SUS em comparação com a rede privada

A análise, conduzida por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita e do IDOR (Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino), comparou o perfil de pacientes com dengue em UTIs. Os resultados são alarmantes: um em cada cinco pacientes admitidos em UTIs públicas necessitou de intubação nas primeiras 24 horas, uma taxa consideravelmente superior aos 4% observados na rede privada.

Essa diferença substancial sugere que, apesar de a idade mediana dos pacientes do SUS ser de 50 anos, contra 54 na rede privada, a falência de órgãos e a instabilidade hemodinâmica já estão mais avançadas no momento da chegada à terapia intensiva. Isso implica uma corrida contra o tempo para estabilizar esses pacientes, que frequentemente já se encontram em estado crítico.

Intervenções médicas e risco de mortalidade

A pesquisa detalha a necessidade de intervenções médicas complexas e a sua relação direta com o risco de morte. Nas primeiras 24 horas de internação, 22,4% dos pacientes do SUS precisaram de medicamentos vasopressores para sustentar a pressão arterial, em contraste com 5,3% na rede privada. Os vasopressores são fármacos essenciais para combater o choque circulatório, uma condição grave onde a circulação sanguínea é insuficiente para suprir os órgãos com oxigênio e nutrientes.

Além disso, a hemodiálise foi necessária em 4,7% dos casos no SUS, enquanto na rede privada esse percentual foi de 1,3%. A necessidade desses procedimentos indica um comprometimento renal e cardiovascular mais severo entre os pacientes do sistema público. O estudo também revelou que a taxa de mortalidade foi significativamente maior entre os pacientes que precisaram de vasopressores, atingindo 54,6% nesse grupo específico durante a internação na UTI.

A jornada do paciente e a demora no atendimento

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores para explicar a maior gravidade dos pacientes do SUS é a demora para o acesso à terapia intensiva. Segundo o cardiologista Henrique Fonseca, coautor do estudo e pesquisador do Einstein, pacientes da rede pública frequentemente percorrem um caminho mais longo, passando por Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) antes de serem encaminhados a um hospital.

Em contrapartida, quem possui plano de saúde tende a buscar diretamente um pronto-socorro hospitalar. O intensivista Luciano Azevedo, autor principal do artigo, reforça que a escassez de vagas e o sistema de regulação podem fazer com que o paciente aguarde em um ambiente que não é o de terapia intensiva, contribuindo para o agravamento do quadro antes da admissão na UTI. Embora o estudo não tenha medido o intervalo entre o início dos sintomas e a internação, a evidência da maior gravidade é inquestionável.

Idade como fator de risco e a disparidade da mortalidade

A idade também se mostrou um fator crucial no risco de mortalidade por dengue. No registro UTIs Brasileiras, que reúne dados de hospitais públicos e privados, a mortalidade foi de 3,5% entre menores de 40 anos, subindo para 6,3% entre 41 e 65 anos, e alcançando 14,4% para maiores de 65 anos. No entanto, os dados do Datasus, que se referem exclusivamente a internações no SUS ou em UTIs conveniadas, mostram taxas ainda mais elevadas: 10% para menores de 40, 18% para a faixa de 41 a 65, e impressionantes 30% para maiores de 65 anos.

Esses números ressaltam a vulnerabilidade dos idosos, especialmente no contexto do sistema público, onde a combinação de comorbidades e a demora no acesso a cuidados especializados podem ser fatais. A análise do Datasus incluiu 11.241 internações e 2.091 mortes, resultando em uma taxa de mortalidade geral de 18,6%, quase o dobro da média total do registro UTIs Brasileiras (8,1%), que engloba ambas as redes.

Para mais informações sobre a saúde pública e os desafios enfrentados no combate à dengue, acesse o site do Ministério da Saúde.

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