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Flávio Bolsonaro e a fé eleitoral: promessa sobre Jesus como ‘Senhor do Brasil’ gera controvérsia

Flávio Bolsonaro e a fé eleitoral: promessa sobre Jesus como 'Senhor do Brasil' gera controvérsia
Bruno Santos - 28.set.26/Folhapress

A declaração de Flávio Bolsonaro sobre a intenção de tornar Jesus o “Senhor do Brasil” por meio de um decreto presidencial, caso eleito, reacendeu um intenso debate sobre a manipulação da fé no cenário político nacional. A promessa, feita no final de agosto, ganhou repercussão e levantou questionamentos sobre os limites da laicidade do Estado e a instrumentalização de crenças religiosas para fins eleitorais.

A controvérsia se intensificou após a circulação de notícias falsas de que o candidato retiraria de Nossa Senhora o título de padroeira do Brasil. Embora Flávio Bolsonaro não tenha feito tal promessa diretamente, sua fala foi interpretada por muitos como um aceno a uma visão de hegemonia religiosa, especialmente entre os eleitores evangélicos pentecostais e neopentecostais, que possuem uma teologia específica sobre o domínio territorial e espiritual.

A promessa e suas raízes teológicas

A frase “O Brasil é do Senhor Jesus”, proferida por Flávio Bolsonaro, funciona como uma senha para um segmento específico do eleitorado evangélico. Dentro da teologia pentecostal e neopentecostal, há uma crença arraigada de que territórios podem ser dominados por entidades demoníacas. Assim, a declaração de que o país seria do “Senhor Jesus” é vista como uma “transferência legal” dessas áreas do domínio do mal para o governo do bem, um conceito central na chamada “batalha espiritual”.

Essa lógica não é nova no Brasil. É comum observar em acessos a cidades brasileiras placas que proclamam “Esta cidade é do Senhor Jesus”. O que Flávio Bolsonaro sinalizou, ao propor um decreto presidencial, foi a elevação dessa lógica de batalha espiritual, que tradicionalmente opera em nível municipal, para a esfera federal. Essa transposição levanta preocupações sobre a separação entre Igreja e Estado, um pilar da República brasileira.

A herança católica e a busca evangélica por hegemonia

As placas e portais que afirmam o domínio de Jesus sobre uma cidade não carregam apenas um significado religioso; elas também funcionam como um sinal visível da presença e da força eleitoral das igrejas evangélicas em um determinado território. Esse fenômeno aponta para uma questão mais ampla: a expansão evangélica, em vez de ser percebida como uma diversificação religiosa natural em uma democracia laica, começa a ser interpretada como uma busca por hegemonia por parte de uma nova força religiosa.

Essa dinâmica remete à era do catolicismo romano como religião oficial do Brasil, desde o período colonial (1500) até a Proclamação da República (1889). A separação entre Igreja e Estado, estabelecida com a República, marcou o fim de uma época em que a nacionalidade e o território eram intrinsecamente definidos pelo pertencimento a uma confissão religiosa. Feriados nacionais, nomes de cidades e estados batizados com santos católicos são a herança dessa era. A promessa de Flávio Bolsonaro foi entendida pelo “evangélico pentecostal raiz” como a transferência desse domínio territorial, espiritual e simbólico, historicamente católico, para as igrejas evangélicas.

Implicações políticas e o risco de alianças

Embora o candidato não tenha prometido explicitamente retirar Nossa Senhora do posto de Padroeira do Brasil, sua legitimação de uma visão evangélica de busca por hegemonia territorial e simbólica tornou plausíveis as suspeitas em torno de suas intenções político-religiosas. O gesto foi visto como um afago ao triunfalismo evangélico, que busca consolidar sua influência na cultura nacional.

Historicamente, evangélicos bolsonaristas e setores conservadores do catolicismo têm operado em uma lógica de dominação religiosa da cultura nacional, unindo-se contra um “inimigo comum”, frequentemente identificado com a esquerda. Esse pacto tácito de não agressão entre os dois grupos religiosos, no entanto, pode ser colocado em risco por declarações que favorecem abertamente um lado em detrimento do outro, reacendendo antigas tensões e disputas por espaço e influência.

O debate sobre a laicidade do Estado

A polêmica em torno da declaração de Flávio Bolsonaro possui a virtude de trazer à tona um debate fundamental para a sociedade brasileira: o papel da religião na política e a importância da manutenção de um Estado laico. A laicidade garante a liberdade de crença e de não crença para todos os cidadãos, impedindo que qualquer religião seja privilegiada ou perseguida pelo poder público. Acesse mais informações sobre a laicidade do Estado brasileiro.

A instrumentalização da fé para ganhos eleitorais, independentemente da religião envolvida, pode minar a confiança nas instituições democráticas e polarizar ainda mais a sociedade. É crucial que líderes políticos respeitem a diversidade religiosa e a separação entre Igreja e Estado, garantindo que o debate público se concentre em propostas concretas para o bem-estar de todos os brasileiros, sem distinção de credo.

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