Em um cenário político frequentemente dominado pela polarização, a economista Deborah Bizarria levanta um questionamento fundamental sobre a natureza das campanhas eleitorais, especialmente as que se desenham para 2026. Em sua análise, Bizarria observa que, apesar de candidatos à Presidência abordarem temas cruciais como educação, saúde e investimentos, suas propostas muitas vezes carecem de uma articulação coerente que demonstre como tais iniciativas podem resultar em maior produtividade, redução de custos de vida e melhoria dos serviços públicos para todos. A impressão, segundo ela, é de um foco excessivo na derrota do adversário, em detrimento da construção de uma visão de futuro e da governança para o conjunto da sociedade, incluindo os eleitores opositores.
Essa abordagem, embora legítima no embate democrático, pode alimentar uma perigosa mentalidade de “soma zero”. Nela, a criação de oportunidades para um grupo é percebida como uma subtração de oportunidades de outro. Quando essa visão permeia o eleitorado, até mesmo melhorias que poderiam beneficiar a todos encontram forte resistência, custando à nação oportunidades valiosas de cooperação e progresso.
A mentalidade de soma zero e seus impactos
A percepção de que a política é um jogo onde o ganho de um lado necessariamente implica na perda do outro é um obstáculo significativo para o avanço social e econômico. Deborah Bizarria ilustra essa dinâmica com um experimento realizado no Reino Unido, envolvendo 599 participantes. Neste estudo, conforme apontado por Patricia Andrews Fearon e Friedrich Götz, indivíduos que apresentavam crenças mais fortes de soma zero demonstraram menor propensão à cooperação, mesmo quando a colaboração resultaria em benefícios mútuos e tangíveis. Eles se preocupavam mais em superar o parceiro do que em otimizar o próprio resultado, um comportamento que, na política, se traduz em resistência a reformas e políticas que poderiam gerar prosperidade compartilhada.
Essa mentalidade não apenas dificulta a implementação de políticas públicas eficazes, mas também aprofunda divisões sociais. Quando as dificuldades econômicas ou sociais são atribuídas ao avanço de um “outro grupo”, a construção de apoio para mudanças se torna uma tarefa hercúlea. Um exemplo notável é a forma como a explicação da causa de demissões pode alterar a posição pública: quando atribuídas à transferência de produção para o exterior, o apoio ao protecionismo aumenta, mesmo que outras causas, como mudanças tecnológicas ou queda na demanda, possam ser igualmente ou mais relevantes.
Desafios na construção de apoio para reformas
A autora destaca que a superação da lógica de soma zero é crucial para o sucesso de diversas agendas de reforma. No comércio internacional, por exemplo, barreiras protecionistas podem proteger um setor específico, mas encarecem produtos e insumos para consumidores e outras empresas, cujos interesses transcendem as divisões partidárias. A abertura econômica, que poderia beneficiar a maioria com produtos mais baratos e maior competitividade, exige um esforço para reconhecer esses benefícios e, simultaneamente, amparar os trabalhadores que necessitariam de recolocação profissional.
O mesmo princípio se aplica a outras áreas. A revisão de isenções fiscais setoriais, por exemplo, pode retirar vantagens de algumas empresas, mas libera recursos e investimentos para serem alocados em negócios mais rentáveis, impulsionando a geração de empregos e a oferta de produtos mais acessíveis. Da mesma forma, permitir que novas empresas operem linhas de ônibus interestaduais pode aumentar a concorrência, oferecendo mais horários e passagens mais baratas aos passageiros, embora possa impactar as viações já estabelecidas.
Cooperação Política: o caminho para o futuro
Em todos esses cenários, a resistência imediata vem daqueles que perdem vantagens ou receitas. Os potenciais beneficiários, por sua vez, estão dispersos e dependem de uma política bem executada e de uma comunicação clara sobre os ganhos que podem ser alcançados. É fundamental, portanto, que as lideranças políticas demonstrem o que a sociedade como um todo pode ganhar com a cooperação, independentemente de ideologias ou preferências partidárias. A capacidade de mobilizar apoio para a mudança reside em apresentar uma visão de futuro que transcenda a mera disputa por recursos existentes, focando na criação de novas oportunidades.
A reflexão de Deborah Bizarria aponta para um anseio por campanhas eleitorais que inspirem a criação conjunta e o sonho de um futuro construído em colaboração, em vez de um jogo de soma zero. Em um país com desafios tão complexos, a cooperação política e a busca por soluções que gerem ganhos mútuos são imperativas para o desenvolvimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. É um convite à imaginação de um Brasil onde o primeiro passo para o progresso é dado em conjunto.
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