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Enhanced Games: a realidade dos superatletas e o desempenho aquém do esperado

Enhanced Games: a realidade dos superatletas e o desempenho aquém do esperado
Bruno Gualano

A promessa de uma nova era no esporte, onde os limites humanos seriam redefinidos pela ciência e pela farmacologia, encontrou um obstáculo significativo na primeira edição dos Enhanced Games (EG). O evento, que se propôs a abolir as regras antidoping e celebrar o aprimoramento atlético sem restrições, não conseguiu entregar a profusão de recordes mundiais esperada por seus idealizadores. Um estudo recente, liderado pelo Dr. Rafael Azevedo e cujas conclusões foram apresentadas pelo professor Bruno Gualano, do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP, revelou que os resultados ficaram, em grande parte, aquém das expectativas.

A iniciativa dos Enhanced Games surgiu com a visão ambiciosa de Aron D’Souza, seu fundador, que desejava ver atletas de 40, 50 e até 60 anos quebrando recordes mundiais. A motivação, segundo ele próprio confessou, não era apenas o amor pelo esporte, mas a intenção de provocar no público a pergunta: “O que ele está tomando e como eu faço para conseguir isso?”. A ideia central era que, sem as proibições do antidoping, o aprimoramento farmacológico permitiria aos competidores superar barreiras físicas, resultando em uma enxurrada de novas marcas históricas.

A aposta na farmacologia e a investigação científica

Realizada a primeira edição em maio de 2026, a comunidade científica e esportiva aguardava os desdobramentos. Foi nesse contexto que o estudo liderado pelo Dr. Rafael Azevedo, com a contribuição de Bruno Gualano, buscou investigar se as elevadas expectativas dos Enhanced Games se concretizaram. Os resultados dessa pesquisa, que será publicada na prestigiada Physiological Reports, lançam luz sobre a complexa relação entre performance atlética e o uso de substâncias.

Para a análise, foram utilizados dados públicos de 42 atletas e 66 desempenhos em três modalidades principais: atletismo, natação e levantamento de peso. Embora os protocolos específicos de dopagem de cada competidor não tenham sido divulgados, sabe-se que tais regimes geralmente envolvem substâncias como testosterona, outros anabolizantes, hormônio do crescimento e eritropoietina. É importante notar que apenas quatro atletas declararam não utilizar substâncias dopantes, o que permitiu uma comparação exploratória com os “aprimorados” farmacologicamente.

Resultados aquém do esperado e o constrangimento dos organizadores

Contrariando as projeções otimistas, o estudo identificou a quebra de um único recorde mundial durante os Enhanced Games. Esse feito ocorreu na prova dos 50 metros livres da natação, mas com uma ressalva significativa: o atleta utilizou um traje de corpo inteiro, equipamento que é proibido pela World Aquatics, a federação internacional de natação. O CEO dos EG, Maximilian Martin, não conseguiu disfarçar o constrangimento diante dos resultados. “Esperava que quebrássemos mais alguns recordes mundiais. Mas, no fim das contas, isso é esporte ao vivo”, declarou, minimizando a situação.

Os dados revelaram um cenário ainda mais desafiador para a tese dos Enhanced Games. Antes do evento, as melhores marcas pessoais dos atletas estavam, em média, 5,8% abaixo dos recordes mundiais vigentes. Durante os jogos, essa distância aumentou para 8,6%. Além disso, para cada 21 novos recordes pessoais estabelecidos, houve 45 casos em que a melhor marca da carreira do atleta não foi superada. No cômputo geral, o desempenho médio nos Enhanced Games foi 2,7% pior que o histórico dos próprios competidores. No atletismo, considerado a “joia da coroa” do esporte de elite, nenhum atleta conseguiu bater sua melhor marca pessoal. Os organizadores poderiam argumentar que muitos competidores vinham de longos períodos de inatividade ou treinamento irregular, mas essa justificativa contradiz a própria promessa de que as drogas supririam tais deficiências.

Performance multifatorial e o mito do rejuvenescimento

Um dos achados mais intrigantes do estudo foi a comparação entre os atletas que declararam não usar substâncias dopantes e os “aprimorados”. Em média, os não dopados ficaram mais próximos de seus recordes pessoais do que seus pares que utilizaram aprimoramento farmacológico. Embora isso não seja suficiente para afirmar uma superioridade atlética dos não dopados, o dado reforça a ideia de que o desempenho esportivo é um fenômeno multifatorial, que não pode ser reduzido apenas à farmacologia.

A hipótese de que as drogas poderiam compensar o declínio natural de desempenho associado à idade também foi testada e se mostrou frágil. Os atletas que conseguiram bater recordes pessoais nos Enhanced Games tenderam a ser mais jovens e com uma idade mais próxima daquela em que haviam alcançado suas melhores marcas na carreira. Não houve indicação de que o protocolo de aprimoramento farmacológico tenha atenuado a queda de performance relacionada ao envelhecimento. As promessas de bem-estar, rejuvenescimento e melhoramento de si, tão propagadas pelo marketing, colidiram com uma realidade irredutível. Longe de serem “inovações biotecnológicas” revolucionárias, as substâncias utilizadas são, em muitos casos, drogas e suplementos que já circulam há tempos no mundo fitness, e que, conforme os fatos demonstraram, não entregaram o prometido, mas sim o seu oposto.

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