Em um cenário onde a humanização do parto ganha cada vez mais destaque, a história de Rosângela Aparecida Ferro, de 71 anos, conhecida carinhosamente como Dona Rô, emerge como um símbolo de dedicação e amor ao próximo. Há impressionantes 27 anos, Dona Rô atua como doula voluntária no Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, testemunhando e apoiando milhares de nascimentos e construindo laços de amizade que transcendem o ambiente hospitalar.
Sua presença nos corredores da unidade é um bálsamo para as gestantes, que encontram nela não apenas uma profissional, mas uma figura de apoio emocional e informativo crucial. Dona Rô, moradora da própria Vila Cachoeirinha, dedica seu tempo a um público majoritariamente composto por pessoas em situação de vulnerabilidade econômica das comunidades da zona norte, reforçando o papel vital do voluntariado na saúde pública.
O Legado de Quase Três Décadas no Vila Nova Cachoeirinha
A definição de doula, segundo o dicionário, remete à mulher que auxilia a parturiente durante o parto, orientando exercícios físicos para aliviar dores e desconfortos. Para Dona Rô, contudo, a função vai além: é uma “bênção divina”. Sua atuação se manifesta por meio do toque acolhedor, da explicação detalhada sobre o motivo da dor e o estágio do parto, e da atenção aos pedidos das mães.
Com seus cabelos grisalhos, óculos de armação preta e um sorriso constante, Dona Rô circula pelo hospital, visitando “mãezinhas” em diferentes fases – seja na ansiosa espera, no momento do parto ou na recuperação pós-operatória. Cada conversa é uma oportunidade para compartilhar histórias dos seus quase 30 anos de experiência, transmitindo calma e confiança em um dos momentos mais importantes da vida de uma mulher.
O Papel Essencial da Doula no Parto Humanizado
A figura da doula ganhou proeminência nos últimos anos, impulsionada pela crescente discussão sobre o parto humanizado no Sistema Único de Saúde (SUS). O trabalho dessas profissionais é reconhecido como um direito da gestante, essencial para proporcionar um ambiente mais acolhedor e menos medicalizado durante o nascimento. Doulas oferecem suporte emocional, físico e informativo, diferenciando-se das parteiras por não realizarem exames ou intervenções médicas.
Em 2021, a atividade de doula foi oficialmente reconhecida como profissão no Brasil, estabelecendo critérios de formação, como a exigência de 120 horas de curso. Embora a prática possa ser remunerada, Dona Rô mantém sua essência voluntária. “Jamais aceitaria receber qualquer” valor, afirma, reiterando seu compromisso desinteressado com o bem-estar das gestantes.
A presença de uma doula, como Dona Rô, é particularmente relevante em hospitais públicos, onde a demanda é alta e o tempo da equipe médica muitas vezes limitado. O apoio contínuo e personalizado que ela oferece contribui significativamente para a redução da ansiedade materna, a promoção de uma experiência de parto mais positiva e a diminuição da necessidade de intervenções desnecessárias. Para saber mais sobre a profissionalização das doulas no Brasil, clique aqui.
Voluntariado na Saúde: Um Elo com a Comunidade
Dona Rô integra o Programa Voluntários da Saúde da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS), uma iniciativa que mobiliza a comunidade para contribuir com diversas atividades. Além do apoio às gestantes, o programa oferece oportunidades de voluntariado em áreas como arte, cultura e empreendedorismo. Atualmente, a rede municipal de saúde conta com 650 voluntários, embora a SMS não especifique quantos deles atuam como doulas.
O engajamento de voluntários como Dona Rô é um pilar fundamental para fortalecer o atendimento em hospitais públicos, especialmente em regiões com alta vulnerabilidade social. Sua atuação vai além do auxílio técnico; ela representa um elo humano e comunitário, trazendo conforto e esperança para famílias que muitas vezes enfrentam desafios complexos. A dedicação de quase três décadas de Dona Rô é um testemunho do poder transformador do voluntariado e da importância de um cuidado que abrange não apenas o corpo, mas também a alma.
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