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Doenças raras: a árdua jornada por diagnóstico e tratamento no Brasil

Doenças raras: a árdua jornada por diagnóstico e tratamento no Brasil
Zo Guimaraes/Folhapress

A realidade dos pacientes com doenças raras no Brasil é marcada por uma odisseia que se estende desde a busca incansável por um diagnóstico preciso até a luta diária pelo acesso a tratamentos adequados. Enquanto casos de grande repercussão, como o do influenciador e piloto Lito Sousa, 59 anos, que recebeu um tratamento experimental importado para a doença de Creutzfeldt-Jakob, ganham os holofotes, a maioria dos brasileiros enfrenta um cenário de invisibilidade e obstáculos sistêmicos.

A história de Lito, internado na UTI do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, e que teve acesso a uma substância experimental após autorização da Anvisa, ilustra a complexidade e a mobilização que podem ocorrer em situações extremas. A operação para trazer o medicamento ao Brasil, envolvendo a Receita Federal e transporte de helicóptero, destaca a urgência e a esperança depositadas em terapias ainda sem segurança ou eficácia comprovadas. Contudo, essa é uma exceção que contrasta com a vivência da vasta maioria dos pacientes.

A árdua busca por um diagnóstico preciso

Para muitos, a jornada começa com sintomas inespecíficos e uma peregrinação por diversos especialistas, exames e hospitais. Ana Paula Soares, 49 anos, supervisora de campo moradora de Madureira, Rio de Janeiro, vivenciou essa realidade. Em 2019, uma tosse persistente e cansaço sinalizaram o início de um calvário de quatro anos até a descoberta de sua condição.

Após uma tomografia revelar alterações pulmonares e uma internação em UTI, Ana Paula iniciou uma série de consultas e exames caros, transitando entre o SUS, plano de saúde e médicos particulares. Biópsias pulmonares de R$ 20 mil, consultas de R$ 800 e testes de função pulmonar de R$ 650 foram parte da sua rotina, enquanto a doença progredia, causando falta de ar para atividades simples como tomar banho e acessos de tosse que levavam ao vômito.

Somente em 2021, no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ, ela recebeu o diagnóstico de doença pulmonar intersticial com fibrose. Dois anos depois, em 2023, a fibrose foi finalmente relacionada à síndrome antissintetase, uma doença autoimune rara que pode afetar músculos, articulações e, no caso de Ana Paula, os pulmões. Sua experiência ressalta a importância vital do sistema público de saúde, apesar de suas falhas. “Se eu não tivesse ido para o SUS, não teria tido a confirmação do que eu tinha e poderia ter morrido”, relata.

O desafio de acessar tratamentos e a via judicial

Mesmo após o diagnóstico, o acesso a tratamentos é outro grande obstáculo. Muitos medicamentos para doenças raras são de alto custo e nem sempre estão disponíveis na rede pública ou cobertos pelos planos de saúde. Isso leva famílias a situações desesperadoras, recorrendo a ações judiciais para garantir o direito à saúde ou a campanhas de arrecadação de fundos, as famosas “vaquinhas”, para custear terapias essenciais.

A Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doenças Raras, instituída no Brasil, busca organizar a rede de atendimento e garantir o acesso a diagnóstico e tratamento. No entanto, a implementação plena e a superação das barreiras burocráticas e financeiras ainda são desafios constantes. A judicialização da saúde, embora seja um recurso para muitos, sobrecarrega o sistema e nem sempre é a solução mais eficiente ou equitativa, evidenciando a necessidade de políticas públicas mais robustas e abrangentes.

Apoio e direitos: um caminho para a dignidade

Pacientes com doenças raras e seus familiares possuem direitos específicos que visam mitigar os impactos da condição. Estes incluem o acesso a medicamentos, exames e consultas especializadas, além de benefícios sociais e previdenciários, como auxílio-doença, aposentadoria por invalidez e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), dependendo da gravidade e do impacto na capacidade de trabalho e vida autônoma. É fundamental que os pacientes e suas famílias busquem informações junto a associações de apoio e órgãos de defesa do consumidor e da saúde.

A conscientização sobre esses direitos e a existência de centros de referência, como o Hospital Universitário da UFRJ no caso de Ana Paula, são cruciais. A troca de experiências e o suporte mútuo entre pacientes e familiares também desempenham um papel vital na superação das dificuldades, oferecendo um senso de comunidade e força para enfrentar a doença.

Além da saúde: o impacto social e econômico das doenças raras

O impacto das doenças raras transcende a esfera da saúde individual, atingindo profundamente a estrutura familiar e social. A perda de renda, como no caso de Ana Paula, que está afastada do trabalho, é uma consequência comum. Além disso, os deslocamentos frequentes para consultas e exames em centros especializados, muitas vezes em outras cidades, geram custos adicionais e desgaste físico e emocional.

A sobrecarga dos cuidadores, geralmente membros da família, é imensa, afetando sua própria saúde e capacidade de trabalho. A falta de conhecimento sobre as doenças raras na sociedade e até mesmo entre profissionais de saúde agrava o isolamento e a dificuldade de acesso a serviços adequados, reforçando a urgência de investimentos em pesquisa, formação profissional e campanhas de conscientização para toda a população.

A complexidade das doenças raras exige uma abordagem multifacetada, que combine avanços científicos, políticas públicas eficazes e uma rede de apoio sólida. A luta por diagnóstico e tratamento é, em última instância, uma luta por dignidade e qualidade de vida para milhares de brasileiros. Para mais informações sobre as políticas e diretrizes para doenças raras no Brasil, você pode consultar o portal do Ministério da Saúde. Continue acompanhando o M1 Metrópole para as notícias mais relevantes sobre saúde, ciência e os desafios sociais do Brasil, seu portal de informação atualizada e contextualizada.

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