O comércio varejista brasileiro registrou uma retração de 0,8% na passagem de junho para julho, um movimento que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) atribui a uma espécie de “ressaca” da Copa do Mundo. Essa queda mensal impacta o desempenho acumulado do setor, que desacelerou para 1,6% no período de 12 meses, indicando uma moderação no ritmo de crescimento observado anteriormente.
Os dados, divulgados nesta terça-feira (15) na Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE, oferecem um panorama detalhado do comportamento do consumidor e das vendas no país. A média móvel trimestral, que suaviza as oscilações pontuais e oferece uma visão mais clara da tendência recente, também apontou uma variação negativa de 0,1%, reforçando a percepção de um arrefecimento no setor.
A “Ressaca” Pós-Copa e o Comportamento do Consumidor
A expressão “ressaca” da Copa do Mundo, utilizada pelo analista da pesquisa Cristiano Santos, ilustra como grandes eventos esportivos podem influenciar significativamente os padrões de consumo. Nos meses que antecedem o torneio, há um aumento expressivo na demanda por produtos específicos, como televisores, artigos esportivos e álbuns de figurinhas, impulsionando as vendas e criando uma base de comparação elevada para os meses seguintes.
O comportamento do consumidor se concentra em compras relacionadas ao evento, esgotando parte de seu poder de compra para essas categorias. “É como se as pessoas tivessem concentrado a capacidade de consumo desses produtos que têm a ver com a copa principalmente em maio”, explicou Santos. Essa antecipação de compras resulta em um declínio natural das vendas logo após o término do evento, como visto em julho, quando a euforia e a necessidade de adquirir esses itens diminuem.
Desaceleração e o Cenário Econômico Amplo
Embora o acumulado de 2026 ainda mostre um avanço de 1,8% para o setor, e o patamar atual do comércio esteja 10,6% acima do nível pré-pandemia de covid-19 (fevereiro de 2020), a desaceleração é um ponto de atenção. Em março, o acumulado de 12 meses era de 2,3%, o que demonstra uma perda de fôlego nos últimos meses. O comércio brasileiro encontra-se atualmente 1,5% abaixo do maior patamar já registrado, alcançado em março de 2026, e em um nível equivalente a dezembro de 2025.
Essa conjuntura no comércio varejista se insere em um contexto econômico mais amplo. O IBGE também divulgou recentemente outros indicadores importantes: o setor de serviços permaneceu estável em julho (variação nula, 0%), com alta de 2,4% em 12 meses, enquanto a produção industrial cresceu 0,2% no mês e 0,6% em 12 meses. A análise conjunta desses dados permite uma compreensão mais completa da dinâmica econômica nacional, onde diferentes setores apresentam ritmos variados de recuperação e crescimento.
Setores em Destaque: Quedas e Crescimentos Pontuais
A Pesquisa Mensal de Comércio revelou que, das oito atividades pesquisadas, cinco apresentaram retração na comparação de junho para julho. As quedas mais expressivas foram observadas em:
- Móveis e eletrodomésticos: -4,9%
- Livros, jornais, revistas e papelaria: -4,2%
- Tecidos, vestuário e calçados: -2,7%
- Outros artigos de uso pessoal e doméstico: -2,2%
- Hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo: -0,2%
Cristiano Santos reforça que a queda em categorias como eletrodomésticos, papelaria e vestuário está diretamente ligada à Copa do Mundo, com a antecipação das compras. Em contrapartida, alguns setores registraram crescimento, como artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (0,6%), equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (0,6%), e combustíveis e lubrificantes (0,3%), demonstrando a resiliência de bens essenciais e de uso contínuo.
No comércio varejista ampliado, que engloba também atividades de atacado como veículos, motos, partes e peças, e material de construção, o indicador subiu 0,4% de junho para julho, marcando uma variação positiva de 1,2% no acumulado de 12 meses. Isso sugere que, apesar da retração no varejo restrito, o segmento mais amplo, que inclui bens de maior valor e investimento, conseguiu manter um desempenho mais estável.
Perspectivas para o Comércio Varejista
A “ressaca” da Copa do Mundo, embora pontual, destaca a sensibilidade do comércio a eventos sazonais e o impacto da antecipação do consumo. Para os próximos meses, o setor dependerá de outros fatores macroeconômicos, como a evolução da inflação, as taxas de juros e o nível de emprego e renda da população. A capacidade de adaptação dos varejistas e a resposta do consumidor a novas campanhas e condições de mercado serão cruciais para a recuperação do ritmo de crescimento.
Acompanhar de perto os dados do IBGE é fundamental para entender as tendências e os desafios que o comércio brasileiro enfrentará. A análise contínua dessas informações permite que empresas e formuladores de políticas públicas tomem decisões mais informadas, visando a estabilidade e o desenvolvimento econômico do país.
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