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Governo de São Paulo planeja leiloar prédios históricos do Centro para revitalização

Governo de São Paulo planeja leiloar prédios históricos do Centro para revitalização
1 de 5 Edifício do antigo Hotel Esplanada faz parte do pacote de leilões planejado pelo Governo de São Paulo — Foto: Leonardo Zvarick/g1

O governo de São Paulo está elaborando um ambicioso plano para revitalizar o Centro da capital paulista por meio do leilão de um conjunto de edifícios históricos. A iniciativa prevê a venda de ícones arquitetônicos da região, como o antigo Hotel Esplanada, o Banco de São Paulo e o emblemático Cine Marrocos, atualmente ocupados por secretarias estaduais ou sem uso definido. A proposta busca atrair investimentos privados para a requalificação desses imóveis, com a expectativa de que eles retomem suas funções originais ou ganhem novos usos que impulsionem a economia e a vida cultural do coração da cidade.

A estratégia vai além de uma simples transação imobiliária. O objetivo é que os futuros proprietários realizem projetos de retrofit, conciliando a preservação do patrimônio tombado com a adaptação para atividades como hotelaria, entretenimento e produção habitacional. Essa abordagem visa não apenas gerar receita, mas também injetar nova vida em uma área que enfrenta desafios de abandono e subutilização de seu vasto acervo arquitetônico.

Leilão com Propósito: Revitalização e Novos Usos

A proposta, ainda em fase de elaboração, prevê que os imóveis sejam vendidos com destinações pré-definidas em contrato. Essa condição é crucial para garantir a preservação do patrimônio histórico e estimular atividades que contribuam diretamente para a recuperação do Centro. Guilherme Afif Domingos, secretário especial de Projetos Estratégicos do governo paulista, explicou ao g1 que será um “leilão com propósito, não é simplesmente vender para qualquer um. São edifícios que têm serventia na recuperação do Centro”.

O modelo em estudo pode incorporar mecanismos semelhantes a Parcerias Público-Privadas (PPPs) ou chamamentos públicos, permitindo que os interessados apresentem projetos detalhados para os imóveis. Os estudos para a venda desses edifícios ocorrem em paralelo ao projeto de transferência da estrutura administrativa do estado para a região dos Campos Elíseos, conduzido pela gestão Tarcísio de Freitas. Com a concentração de cerca de 22 mil funcionários públicos em um novo complexo, a entrega prevista para 2030 e um custo estimado em R$ 6,1 bilhões, a liberação dos prédios históricos se torna estratégica.

Os primeiros leilões estão previstos para o próximo ano e podem auxiliar no custeio de parte das desapropriações necessárias para a implantação da nova sede do governo, estimadas em R$ 600 milhões. Segundo Afif, secretarias com poucos funcionários podem ser mobilizadas antes da construção do centro administrativo, facilitando o processo.

Os Ícones do Centro: Hotel Esplanada, Cine Marrocos e Banco de São Paulo

O pacote de leilões inclui alguns dos mais notáveis edifícios da região central. O principal eixo do projeto envolve o antigo Hotel Esplanada e o Cine Marrocos, além de um galpão anexo sem proteção patrimonial que poderia ser demolido para uma nova construção. Para o secretário Afif, esse conjunto pode se transformar em um polo de hotelaria, habitação e atividades culturais, dando um “start na recuperação” daquela área.

Localizado nos fundos do Theatro Municipal, na Praça Ramos de Azevedo, o Hotel Esplanada foi inaugurado em 1923 e é frequentemente comparado ao Copacabana Palace, por ter sido projetado pelo mesmo arquiteto, o francês Joseph Gire. Após décadas como hotel de alto padrão e sede do grupo Votorantim, foi adquirido pelo governo paulista em 2012 e hoje abriga as secretarias de Agricultura e Turismo, com 621 funcionários. A expectativa é que o leilão o devolva à iniciativa privada para retomar sua vocação hoteleira.

A poucos metros dali, na Rua Conselheiro Crispiniano, encontra-se o antigo Cine Marrocos. Inaugurado em 1951 como “o mais luxuoso cinema da América do Sul”, o prédio contrasta com seu cenário atual. Desativado nos anos 1990, passou por abandono e chegou a ser ocupado. Após reintegração de posse em 2016, sua imponente escadaria de mármore permanece oculta por tapumes, e o interior é usado como depósito. A proposta do governo é transformar a sala de cinema, com capacidade para cerca de 2 mil pessoas, em um espaço para espetáculos, e a torre de 12 andares em moradias.

Na Praça Antônio Prado, o edifício do antigo Banco de São Paulo, inaugurado em 1938, hoje abriga 185 servidores da Secretaria de Esportes. Considerado um dos mais importantes exemplares da arquitetura art déco da capital, o imóvel necessita de intervenções estruturais e de modernização. O governo pretende transferi-lo à iniciativa privada para que assuma um “espírito de entretenimento, hotelaria e habitação”, nas palavras do secretário. Seu térreo, com o salão da antiga agência bancária, é um espetáculo de mosaicos, mármores, vitrais e esculturas, fechado ao público desde a pandemia de Covid.

Debate e Perspectivas sobre o Patrimônio Público

Apesar do “leilão com propósito”, a iniciativa gera debate entre especialistas. Para o arquiteto e urbanista Marcelo Ignatios, diretor da área de Patrimônio e Cidades do Instituto de Arquitetos do Brasil em São Paulo (IAB-SP), a intenção de estabelecer encargos e destinações é um avanço. No entanto, ele questiona a conveniência da venda de ativos públicos de valor histórico e localização privilegiada, sugerindo que o estado poderia utilizar instrumentos já consolidados, como concessões de longo prazo ou fundos de investimento imobiliário, para transferir a gestão à iniciativa privada sem abrir mão da propriedade.

Ignatios argumenta que, caso a estratégia resulte em valorização imobiliária, o ganho ficaria integralmente com os proprietários privados. “Por que o poder público vai vender na baixa e transferir para o privado 100% da valorização imobiliária? Não dá para entender”, questiona. Ele defende que, se a venda for adiante, o modelo inclua salvaguardas claras para proteger o interesse público, como a garantia de que as regras de tombamento não sejam revisadas e que os usos estejam alinhados às políticas de requalificação da região, especialmente a produção habitacional.

O urbanista também enfatiza que o destino dos recursos deve ser orientado por objetivos de interesse coletivo, como o reinvestimento em políticas públicas de habitação social e educação básica, em vez de apenas custear desapropriações para o Centro Administrativo. Em nota, o governo de São Paulo afirmou que “promove continuamente avaliações sobre seu patrimônio imobiliário, utilizando diferentes instrumentos de gestão previstos na legislação, conforme as características e a finalidade de cada ativo”, e que a decisão de leiloar levará em conta o “interesse público e traga benefícios para a sociedade”, com análises técnicas e patrimoniais pela Subsecretaria de Patrimônio do Estado.

Próximos Passos e Outros Imóveis em Análise

Em uma segunda etapa do projeto, o governo estadual também planeja leiloar o edifício Saldanha Marinho, atual sede da Secretaria da Segurança Pública (SSP). Devido ao grande número de servidores, a transferência da pasta exigirá mais tempo e planejamento. A localização do prédio, no Largo de São Francisco, próximo à Faculdade de Direito da USP, aumenta seu potencial para usos ligados à habitação estudantil, uma das possibilidades avaliadas para o imóvel após a transferência à iniciativa privada.

Outro prédio emblemático do Centro, a Casa Caetano de Campos, na Praça da República, que há quase cinco décadas abriga a Secretaria de Educação, teve sua proposta inicial de inclusão no pacote de leilões descartada. Inaugurado em 1894 com projeto de Ramos de Azevedo, o edifício, considerado um dos berços da USP, tem agora o plano de ser transformado em uma escola modelo, mantendo sua vocação educacional.

A revitalização do Centro de São Paulo, por meio da reativação de seus prédios históricos, representa um passo significativo para o futuro da metrópole. O M1 Metrópole continuará acompanhando de perto os desdobramentos desses leilões e os impactos nas políticas urbanas e na vida dos paulistanos. Para se manter informado sobre este e outros temas relevantes que moldam nossa cidade, siga o M1 Metrópole e tenha acesso a informações de qualidade e análises aprofundadas.

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