O Conselho de Justificação da Polícia Militar de São Paulo retomará, em 14 de setembro, o julgamento que pode culminar na expulsão do tenente-coronel Geraldo Neto. O oficial está preso preventivamente sob a grave acusação de ter assassinado sua esposa, a soldado Gisele Alves, em um caso que chocou a corporação e a sociedade paulista. A decisão do colegiado militar é crucial para definir o futuro do tenente-coronel na instituição, em um processo que corre paralelamente à esfera criminal.
Este procedimento administrativo busca determinar se Geraldo Neto ainda possui as condições morais e funcionais necessárias para manter sua patente e permanecer nas fileiras da Polícia Militar. A retomada da audiência, marcada para as 9h por videoconferência, prevê a oitiva de testemunhas de defesa, em mais um capítulo de um caso complexo e de grande repercussão.
O Processo Administrativo e a Busca por Integridade na PM
O Conselho de Justificação (CJ), que iniciou a análise em abril, é o foro responsável por avaliar a conduta de oficiais diante de acusações que comprometam a honra, o pundonor militar ou o decoro da classe. No caso do tenente-coronel Geraldo Neto, a investigação interna tem como objetivo principal verificar se os fatos imputados a ele são incompatíveis com os valores e a disciplina da Polícia Militar. A perda da patente de tenente-coronel seria uma das consequências mais severas desse processo, independentemente do desfecho na Justiça comum.
Em fases anteriores, o CJ já ouviu depoimentos cruciais. Em maio, três policiais militares, amigas próximas de Gisele Alves, e um oficial da PM que atendeu à ocorrência no dia do crime, prestaram suas declarações. Essas testemunhas trouxeram à tona detalhes que pintam um cenário de controle e comportamento possessivo por parte do acusado, elementos que se tornaram centrais na narrativa da acusação.
Acusações de Feminicídio e a Simulação de Suicídio
A acusação, liderada pelo Ministério Público (MP), sustenta que Geraldo Neto assassinou Gisele Alves com um tiro na cabeça e, posteriormente, tentou forjar a cena do crime para simular um suicídio. Laudos periciais e investigações da Polícia Civil e do próprio MP apontam para indícios de que o tenente-coronel teria segurado a cabeça da vítima antes do disparo e manipulado o local para desviar a atenção das autoridades.
As amigas da soldado Gisele Alves, em seus depoimentos, foram unânimes em afirmar que a vítima não demonstrava tendências suicidas. Pelo contrário, relataram um histórico de ciúmes excessivos e controle por parte de Neto, que incluía o monitoramento das redes sociais da esposa, restrições ao uso de maquiagem e perfume, e vigilância sobre suas conversas. Elas também revelaram que Gisele planejava se separar após descobrir traições do marido, o que, segundo a acusação, teria sido o estopim para o crime.
Além disso, o tenente-coronel é acusado de tentar usar sua patente para intimidar policiais militares de menor hierarquia durante o atendimento da ocorrência no apartamento do casal, localizado no Centro de São Paulo. O comportamento de Neto foi registrado pelas câmeras corporais (body cams) dos agentes, e um primeiro-tenente chegou a relatar à Polícia Civil que a cena do crime estava “mais preservada do que o de costume”, levantando suspeitas sobre a integridade do local.
Desdobramentos Criminais e a Busca por Reparação
Paralelamente ao processo administrativo na PM, Geraldo Neto também é réu na Justiça comum, enfrentando acusações de feminicídio e fraude processual. Ele, que tem 53 anos, está detido preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte de São Paulo, desde 18 de março. Gisele Alves tinha 32 anos e deixou uma filha de 7 anos, fruto de um relacionamento anterior, que agora se vê sem a mãe em decorrência dessa tragédia.
A defesa de Neto, representada pelo advogado Eugênio Malavasi, nega veementemente as acusações, alegando que Gisele Alves tirou a própria vida após o tenente-coronel ter pedido o divórcio. Contudo, as evidências e depoimentos colhidos até o momento contradizem essa versão, reforçando a tese do Ministério Público. A expectativa é que o interrogatório de Geraldo Neto no Conselho de Justificação ocorra em uma data futura, ainda não definida, mas que pode ser no próprio dia 14, caso haja tempo hábil.
Se condenado na esfera criminal, a Justiça poderá fixar uma indenização mínima de R$ 100 mil à família da vítima, um valor que, embora importante, não repara a perda irreparável. O caso de Gisele Alves se tornou um símbolo da luta contra a violência doméstica e o feminicídio, ressaltando a importância de uma apuração rigorosa e da responsabilização de agressores, especialmente quando estes ocupam posições de autoridade.
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