A atuação do Discord no Brasil enfrenta um momento de intenso escrutínio por parte das autoridades de segurança pública. Relatórios elaborados pelo Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), da Polícia Civil de São Paulo, revelam uma dinâmica preocupante na moderação de conteúdos ilícitos dentro da plataforma. Segundo os documentos, a empresa chegou a levar quase 17 dias para remover servidores que abrigavam transmissões e discussões sobre temas graves, como automutilação, suicídio, estupros virtuais e abuso sexual infantil.
Falhas na resposta a emergências digitais
O material, que compila 63 comunicações emergenciais enviadas entre maio de 2025 e janeiro de 2026, aponta que o tempo médio de resposta da plataforma foi de 17 horas. Para os investigadores, esse intervalo é incompatível com a urgência necessária para preservar vidas e interromper a disseminação de crimes em tempo real. Os relatórios detalham que, em episódios críticos, a polícia precisou reiterar pedidos de derrubada de servidores que planejavam desde maus-tratos a animais até ataques contra pessoas em situação de rua.
Um dos casos mais emblemáticos citados pelos investigadores ocorreu em julho do ano passado. Após um alerta sobre um servidor que organizava o sacrifício de animais, a plataforma negou a remoção inicial. A exclusão definitiva do ambiente virtual só foi concretizada após mais de 16 dias de insistência por parte das autoridades. Em contrapartida, o tempo mais ágil registrado no mesmo período foi de apenas 16 minutos, evidenciando uma inconsistência nos protocolos de moderação da empresa.
Fragilidade na identificação de usuários
Além da morosidade na remoção de conteúdos, a Polícia Civil aponta falhas estruturais no sistema de cadastro do Discord. De acordo com os relatórios enviados ao Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), a plataforma permite o ingresso de usuários sem a exigência de dados que permitam uma identificação confiável, como telefone ou e-mail verificado. Essa brecha, segundo os investigadores, facilita a criação de perfis falsos e a reincidência de criminosos que, ao serem banidos, retornam rapidamente com novas contas.
Cenário de judicialização e suspensões
A pressão sobre a plataforma resultou em medidas drásticas. Desde 12 de agosto, as transmissões ao vivo do Discord estão suspensas no Brasil por determinação da ANPD, que considerou insuficientes as medidas de segurança para prevenir riscos a crianças e adolescentes. O governo federal também move uma ação judicial contra a empresa, pleiteando uma indenização de R$ 500 milhões e a implementação de protocolos rígidos de segurança.
Em São Paulo, a situação se desdobra em uma ação civil pública movida por uma força-tarefa que inclui o Gaesp e o CyberGaeco. O inquérito, que chegou a ser arquivado em 2024, foi reaberto em fevereiro de 2026 após a apresentação de novas provas pela Polícia Civil sobre a persistência de práticas ilícitas. O caso segue em tramitação, com audiências de conciliação marcadas na Justiça Federal do Distrito Federal para definir os próximos passos da regulação da plataforma no país.
Para entender os desdobramentos desta investigação e acompanhar as decisões judiciais que impactam o uso de redes sociais no Brasil, continue acompanhando o M1 Metrópole. Nosso compromisso é levar até você uma cobertura jornalística aprofundada, com foco na transparência e na segurança digital.