A paisagem urbana de São Paulo testemunha uma transformação nos hábitos de deslocamento. Um estudo recente da ONG Ciclocidade, com apoio da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), aponta para uma ascensão das bicicletas elétricas e veículos autopropelidos, como as scooters, em detrimento das bicicletas convencionais. Essa mudança, consolidada nos últimos três anos, levanta discussões sobre o futuro da mobilidade na capital e seus impactos.
Os dados revelam uma inversão de tendências que merece atenção. Enquanto o número de viagens realizadas com bicicletas tradicionais registrou uma queda de 7% no período analisado, passando de 36,5 mil para 33,75 mil, o cenário para os veículos motorizados leves é de explosão. As viagens com bicicletas elétricas e scooters dispararam mais de dez vezes, saltando de 703 para 7.268. Esse crescimento exponencial indica uma rápida adaptação dos paulistanos a novas formas de transporte individual, impulsionadas pela busca por agilidade e facilidade de uso.
A ascensão das bicicletas elétricas e scooters
O aumento expressivo no uso de bicicletas elétricas e scooters reflete uma busca por alternativas ao trânsito caótico e ao transporte público. Para muitos, esses veículos oferecem uma solução prática para percorrer distâncias médias, evitando congestionamentos e reduzindo o tempo de deslocamento. A autonomia e a assistência elétrica tornam a pedalada menos exaustiva, democratizando o acesso ao ciclismo para um público mais amplo, que talvez não se sentisse confortável em usar uma bicicleta tradicional em uma cidade com topografia variada como São Paulo.
No entanto, essa transição não é vista de forma unânime como um avanço. Mateus Humberto, professor de Engenharia de Transportes da Universidade de São Paulo (USP), expressa preocupação. Ele argumenta que a migração de usuários do transporte público para esses modais individuais pode ter consequências negativas a longo prazo. “Eu acredito que foi um retrocesso, porque a gente está não só tirando pessoas do transporte público. A gente tem pesquisas mais fora do Brasil, na América Latina, em Bogotá, que dizem que metade desses usuários que usam os autopropelidos vêm do transporte público”, afirmou o especialista. Essa saída pode, segundo ele, encarecer as tarifas do transporte coletivo e perpetuar um ciclo vicioso.
Desafios da infraestrutura cicloviária na capital
Apesar do crescimento do ciclismo, a infraestrutura cicloviária de São Paulo ainda enfrenta desafios. A Ciclovia da Faria Lima, por exemplo, é reconhecida como a mais movimentada da capital, evidenciando a demanda por espaços seguros. Contudo, a falta de apoio e manutenção em outros pontos da cidade é notável. O Largo da Batata, que por anos serviu como um importante centro de apoio para ciclistas tradicionais, oferecendo aulas, reparos rápidos e oficinas, teve seu contêiner desativado em 2024. “É uma pena. Precisava ter um sistema, né? Vários pontos para que a gente conseguisse andar cada vez mais”, lamentou Victor dos Santos, engenheiro civil.
A percepção de que “falta espaço para o ciclista” é compartilhada por muitos, como o estudante Guilherme Souza Ramos. A malha cicloviária, que tinha como meta atingir mil quilômetros até 2024, atualmente conta com cerca de 750 quilômetros. A Prefeitura de São Paulo agora projeta alcançar o objetivo apenas até o fim de 2028, um atraso que impacta diretamente a segurança e a fluidez do deslocamento de quem opta pelas duas rodas. A expansão e a manutenção dessas vias são cruciais para garantir que o aumento no número de ciclistas, sejam eles de bikes tradicionais ou elétricas, ocorra de forma segura e eficiente.
Segurança no trânsito e o aumento de acidentes
A convivência entre diferentes modais de transporte nas ruas de São Paulo é um ponto de constante tensão. Especialistas em mobilidade defendem a premissa de que “o maior protege o menor” — ou seja, veículos maiores devem ter mais atenção aos menores, e todos devem respeitar o pedestre. No entanto, a realidade da falta de espaço e a velocidade dos veículos motorizados frequentemente desorganizam essa lógica, especialmente para os ciclistas.
Um exemplo claro dessa desorganização é observado nas Marginais Pinheiros e Tietê. Embora as bicicletas sejam permitidas apenas nas pistas locais, são comuns os flagrantes de ciclistas pedalando em alta velocidade nas pistas central e expressa, onde até motos são proibidas. Essa prática arriscada, muitas vezes motivada pela busca por um ritmo constante em treinos de ciclismo de velocidade, como relatado pelo empresário Renato Bernardin, expõe os ciclistas a perigos iminentes. “É muito arriscado. Muito complicado. Muitas coisas para você ficar prestando atenção”, disse Bernardin.
Os números refletem a gravidade da situação: houve um aumento alarmante de 28% no número de mortes de ciclistas na capital neste ano, com 18 vítimas registradas entre janeiro e julho. Mateus Humberto reforça a necessidade de maior calma e cuidado por parte dos condutores de veículos motorizados. “A nossa cidade precisa de mais calma. Principalmente para os motorizados, né? Que têm que cuidar das pessoas que são o próprio chassi, né?”, pontuou. A educação e o respeito mútuo são, segundo a empresária Yasmin Rufino, a base para um trânsito mais seguro para todos, seja na ciclovia ou na via compartilhada. Para mais informações sobre mobilidade urbana, visite o site da Ciclocidade.
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