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Amnésia imunológica: como o sarampo apaga a memória de defesa do corpo humano

Amnésia imunológica: como o sarampo apaga a memória de defesa do corpo humano
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O impacto do sarampo no sistema de defesa

O sarampo é frequentemente lembrado por seus sintomas visíveis, como as manchas vermelhas pelo corpo e a febre alta. No entanto, a ciência tem revelado um efeito muito mais insidioso e duradouro após a infecção: a chamada amnésia imunológica. Esse fenômeno funciona como se o sistema de defesa do corpo, que armazena informações sobre todos os microrganismos combatidos ao longo da vida, tivesse páginas importantes de seu acervo apagadas pelo vírus.

A bióloga Patrícia Rosa Vanderborght, do Richet Medicina e Diagnóstico da Rede D’Or, explica que o vírus do sarampo atinge células cruciais para a memória imunológica. Ao comprometer essas estruturas, o organismo perde parte do repertório de anticorpos que já havia adquirido contra outras doenças. Em termos práticos, o corpo esquece como combater patógenos que já enfrentou anteriormente, tornando o indivíduo vulnerável a novas infecções que, teoricamente, já estariam sob controle.

O paradoxo da proteção seletiva

Um dos aspectos mais intrigantes desse processo é o paradoxo que ele cria. Enquanto o corpo perde a capacidade de reconhecer uma vasta gama de microrganismos externos, ele desenvolve uma imunidade extremamente robusta contra o próprio vírus do sarampo. Jessica Fernandes Ramos, médica do Núcleo de Infectologia do Hospital Sírio-Libanês e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), esclarece que a reposição de células de defesa após a recuperação não garante a restauração da memória imunológica.

“Depois que a pessoa melhora do sarampo, o número de células de defesa até pode voltar ao normal relativamente rápido, mas isso não significa que a biblioteca voltou a ter todos os livros”, afirma a especialista. O organismo passa a produzir novas células que, embora eficazes contra o sarampo, não possuem a “leitura” necessária para identificar ameaças antigas. Esse desequilíbrio deixa o sistema imunológico fragilizado por um período prolongado, aumentando o risco de complicações por doenças que seriam facilmente evitadas em condições normais.

Evidências científicas e o papel da vacinação

Estudos de referência internacional, como os publicados nas revistas Science e Science Immunology, confirmam a gravidade do fenômeno. Pesquisadores de Harvard, ao acompanharem crianças não vacinadas, observaram que a infecção pelo sarampo pode eliminar entre 11% e 73% do repertório de anticorpos preexistentes. Esses dados reforçam que a vacinação não é apenas uma medida de proteção individual contra o sarampo, mas uma estratégia fundamental para preservar a integridade do sistema imunológico como um todo.

A vacina impede que o vírus circule e, consequentemente, evita que o organismo passe pelo processo de “apagamento” de sua memória de defesa. Manter o calendário vacinal em dia é a única forma segura de garantir que o corpo mantenha seu arsenal de proteção intacto, evitando que infecções evitáveis se transformem em riscos graves à saúde pública.

O M1 Metrópole segue acompanhando os desdobramentos sobre saúde pública e os avanços das pesquisas científicas que impactam o cotidiano da população. Continue conosco para se manter informado com conteúdos aprofundados, apurações rigorosas e análises sobre os temas que movem o Brasil e o mundo.

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