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Paraisópolis: 12 policiais vão a júri popular por mortes em baile funk

Paraisópolis: 12 policiais vão a júri popular por mortes em baile funk
Oito homens e uma mulher morrem pisoteados em baile funk em Paraisópolis, em São Paulo

Após quase sete anos de espera e uma luta incansável por justiça, a Justiça de São Paulo determinou que 12 policiais militares serão julgados pelo Tribunal do Júri. Eles são acusados pelas mortes de nove jovens durante uma ação policial no baile da DZ7, na comunidade de Paraisópolis, Zona Sul da capital paulista. A decisão, assinada na segunda-feira (17) pela juíza Ana Luisa Marcondes Esteves, da 1ª Vara do Júri do Foro Central Criminal, representa um passo significativo em um caso que chocou o país e levantou debates sobre a atuação policial em comunidades.

Para os familiares das vítimas, a notícia foi recebida com um misto de alívio e apreensão. Embora reconheçam a importância da decisão, paira a dúvida sobre a capacidade do sistema judicial em responsabilizar todos os envolvidos e garantir uma justiça plena, especialmente considerando o histórico de impunidade em casos que envolvem agentes de segurança.

O Massacre de Paraisópolis e a Longa Espera por Justiça

O episódio, que ficou conhecido como o massacre de Paraisópolis, ocorreu em dezembro de 2019, quando oito homens e uma mulher morreram pisoteados durante uma operação da Polícia Militar em um baile funk. A investigação apontou que os jovens foram encurralados, resultando em um tumulto fatal. Oito das vítimas morreram por asfixia mecânica por sufocação indireta, enquanto Mateus dos Santos Costa faleceu em decorrência de traumatismo raquimedular.

Paraisópolis, uma das maiores favelas de São Paulo, é um vibrante centro cultural, onde os bailes funk, como o da DZ7, são importantes manifestações sociais e de lazer para a juventude. Contudo, esses eventos frequentemente se tornam palco de tensões com as forças de segurança, que muitas vezes resultam em confrontos e tragédias.

Entre o Alívio e o Temor: A Voz das Famílias

Maria Cristina Quirino Portugal, mãe de Denys Henrique Quirino Silva, de 16 anos, uma das nove vítimas, é uma das vozes mais ativas no movimento de familiares “Os 9 que Perdemos”. Para ela, a decisão do júri é uma conquista após quase sete anos de espera, mas a experiência pregressa com julgamentos de policiais alimenta o temor de uma nova frustração.

“A gente sabe que é muito difícil levar policiais para o banco dos réus. E mais difícil ainda é fazer a Justiça ser justa com a gente quando chega nesse momento”, desabafa Cristina. Ela cita o caso de Guilherme Silva Guedes, adolescente de 15 anos morto em 2020, onde ex-policiais militares acusados foram absolvidos, exemplificando a “grande inversão de valores” que, em sua visão, ocorre nesses processos.

Vagner dos Santos Oliveira, conhecido como Biu, tio de Luara Victória Oliveira, a única mulher entre as vítimas, expressa uma preocupação mais abrangente. Para ele, a responsabilização apenas dos policiais que estavam na linha de frente da operação não encerra a discussão sobre a cadeia de comando. “A Justiça colocando apenas os soldados no Tribunal do Júri só demonstra que essa narrativa da classe dominante se perpetuar no poder, ela é nítida, é bem clara”, afirma Biu.

Ele defende que o comandante da operação, o secretário da Segurança Pública e o governador da época também deveriam ser responsabilizados, pois, em sua análise, os soldados apenas “operaram a lógica imposta por essas três pessoas”. Para os familiares, o Estado é o responsável direto pelas mortes, e essa perspectiva precisa ser considerada para uma justiça completa.

O Desafio da Responsabilização Policial no Brasil

A dificuldade em condenar e prender policiais acusados de crimes é um tema recorrente no Brasil, e o caso de Paraisópolis se insere nesse contexto complexo. Cristina teme que a estratégia de defesa dos policiais se baseie na criminalização das vítimas e de seus familiares, uma tática que, segundo ela, já contribuiu para absolvições em outros casos. Essa abordagem não apenas desvia o foco da conduta policial, mas também revitimiza as famílias que buscam reparação.

A decisão de levar os 12 PMs a júri popular é um marco, mas a jornada por justiça está longe de terminar. A sociedade brasileira, e em especial as comunidades mais vulneráveis, acompanham de perto, esperando que o direito constitucional à vida seja respeitado e que a responsabilização se estenda a todos os níveis, garantindo que tragédias como a de Paraisópolis não se repitam. A luta de Cristina e de outros familiares é um lembrete constante da necessidade de um sistema de justiça mais equitativo e transparente.

As Vítimas do Massacre

Os nove jovens que perderam suas vidas naquele trágico dia foram:

  • Bruno Gabriel dos Santos
  • Denys Henrique Quirino Silva
  • Dennys Guilherme dos Santos França
  • Eduardo da Silva
  • Gabriel Rogério de Moraes
  • Gustavo Cruz Xavier
  • Luara Victória Oliveira
  • Marcos Paulo Oliveira dos Santos
  • Mateus dos Santos Costa

É importante ressaltar que, conforme a investigação, nenhum dos nove mortos morava na comunidade de Paraisópolis, o que reforça a natureza indiscriminada e trágica da operação policial. A memória desses jovens e a busca por justiça para suas famílias continuam a impulsionar o debate sobre segurança pública e direitos humanos no país.

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