PUBLICIDADE

Voepass: dois anos após tragédia, famílias seguem na luta por justiça e responsabilização

Voepass: dois anos após tragédia, famílias seguem na luta por justiça e responsabilização
SP Gabriella Ramos/g1

Dois anos se passaram desde a trágica queda do voo 2283 da Voepass em Vinhedo, interior de São Paulo, em 9 de agosto de 2024. Contudo, para as famílias das 62 vítimas, o tempo não amenizou a dor nem a incessante busca por justiça e respostas. O acidente, que chocou o país, permanece como uma ferida aberta, impulsionando um movimento contínuo por responsabilização e transparência. A Polícia Federal (PF) concluiu que a tragédia não foi um evento isolado, mas sim o resultado de uma complexa teia de falhas e omissões envolvendo diversos profissionais da companhia aérea.

A investigação da PF culminou no indiciamento de 16 pessoas, entre funcionários, ex-funcionários e dirigentes da Voepass, que agora deverão responder criminalmente. Este desdobramento, embora aguardado, reacende o debate sobre a segurança da aviação e a fiscalização de empresas no Brasil, trazendo à tona a profunda angústia dos que perderam seus entes queridos e a determinação em garantir que episódios como este não se repitam.

A dor que não diminui e a força da luta

A percepção do tempo é peculiar para quem vive o luto de uma perda tão brutal. Adriana Ibba, mãe de Liz, a vítima mais jovem da tragédia com apenas 3 anos, descreve a sensação como “estranha”. “Parece que foi ontem, porque está tudo ainda tão latente que não parece que se passaram dois anos”, relata Adriana, que também é vice-presidente da associação dos familiares das vítimas. A ausência da filha, a quem chamava de “melhor amiga”, é uma dor diária e a principal fonte de sua força para prosseguir na batalha por justiça.

Liz estaria completando 6 anos, um marco que evoca em Adriana a imagem de uma criança ainda mais falante, independente e em plena fase de descobertas. A promessa de “melhores amigas para sempre” ecoa na memória da mãe, que, apesar da dificuldade, se mantém firme. Sua luta, conforme ela enfatiza, não é apenas por Liz, mas por todas as 62 vidas perdidas e pelas inúmeras famílias impactadas. “Eu falo por todos os familiares que estavam ali, porque não são só 62 vidas, é muito mais. Então hoje a luta é essa, e nós vamos adiante até o fim”, declara.

A investigação da Polícia Federal sobre a Voepass e a cadeia de falhas

A conclusão da Polícia Federal sobre o acidente do voo 2283 da Voepass aponta para uma complexa cadeia de responsabilidades, que se estende desde a operação da aeronave até a gestão da companhia. O delegado-chefe da PF em Campinas (SP), André Almeida de Azevedo Ribeiro, detalhou que a apuração identificou uma série de falhas e omissões que contribuíram para a tragédia. Ao todo, 16 indivíduos foram indiciados por atentado contra a segurança do transporte aéreo, sinistro aéreo com resultado morte e falsidade ideológica.

O cerne da investigação revelou que a aeronave apresentava problemas recorrentes no sistema de degelo, um componente vital para voos em condições de formação de gelo, como as encontradas na rota entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP) no dia do acidente. Tais falhas eram de conhecimento interno da empresa e já haviam sido objeto de apontamentos da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). No entanto, segundo a PF, esses problemas foram sistematicamente ignorados ou omitidos nos registros obrigatórios de manutenção. A investigação concluiu que a tragédia foi uma consequência direta do enfraquecimento progressivo das barreiras de segurança que deveriam proteger a operação aérea. A aeronave foi mantida em serviço mesmo com falhas conhecidas, despachada para uma rota com previsão de gelo severo e continuou a operar sem que problemas críticos fossem formalmente registrados e corrigidos. Essa soma de decisões negligentes, conforme o inquérito, criou as condições que levaram à perda de controle do ATR 72 e à morte de todas as 62 pessoas a bordo. Adriana Ibba expressa a indignação dos familiares: “Eles sabiam. Eles escolheram fingir fazer manutenção. Olha a gravidade disso. Isso é tão surreal. Parece um filme de terror. Então, realmente, eu espero de todo coração que esse pessoal pague e que vá preso”.

Cronologia da angústia: a jornada das famílias por respostas

A jornada de Adriana Ibba, desde o momento da notícia da queda até a conclusão do inquérito policial, é um retrato da angústia e da determinação dos familiares. Ela relembra a incredulidade inicial, a sensação de que o avião da filha não poderia ser aquele. A corrida desesperada para o aeroporto e as horas de espera pela lista de passageiros culminaram na dolorosa confirmação do nome de Liz, um momento que descreve como um pesadelo.

Os dias seguintes foram marcados pela burocracia e pela dor do reconhecimento do corpo de Liz, que levou quase uma semana. Em meio ao luto, a jornalista Adriana iniciou sua própria busca por informações, transformando sua experiência profissional em uma ferramenta para entender o inexplicável. O primeiro relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), apresentado cerca de um mês após a tragédia, ofereceu um “norte” inicial, mas a espera pelo relatório final, quase um ano depois, foi “muito dolorida”. A suspensão dos voos da Voepass pela Anac, meses após o acidente, reforçou as dúvidas sobre a fiscalização da companhia, gerando questionamentos sobre o papel da agência reguladora. Por quase dois anos, Adriana e a diretoria da associação acompanharam de perto os trabalhos em Campinas, culminando na conclusão do inquérito da PF, um momento de grande expectativa para que os 16 indiciados sejam responsabilizados e cumpram suas penas.

A posição da Voepass e os próximos passos legais

Em resposta às conclusões da Polícia Federal e ao indiciamento de seus profissionais, a VOEPASS emitiu uma nota reiterando que a segurança operacional sempre foi sua prioridade máxima. A companhia aérea afirma ter adotado, ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações exigidos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A empresa destaca ainda que possui a certificação IOSA (IATA Operational Safety Audit) desde 2012, concedida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), atestando sua conformidade com rigorosos padrões internacionais de segurança operacional.

A Voepass também mencionou que os treinamentos de seus pilotos abrangiam procedimentos para condições de formação de gelo, seguindo orientações do fabricante e protocolos operacionais. A tripulação do voo 2283, segundo a empresa, era composta por profissionais experientes, com mais de 5 mil horas de voo e certificações atualizadas. Desde o início das investigações, a VOEPASS assegura ter colaborado integralmente com as autoridades, fornecendo documentos, diários de bordo e relatórios técnicos ao Cenipa e à Polícia Federal. A companhia compreende que o relatório da PF é parte da fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, afirmando que exercerá plenamente seu direito de defesa, conforme a legislação vigente. A empresa finaliza reiterando sua solidariedade às famílias das vítimas e sua disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários às autoridades e instituições competentes. Entenda a cadeia de responsabilidades no caso Voepass.

Acompanhe o M1 Metrópole para se manter informado sobre os desdobramentos deste caso e de outras notícias relevantes que impactam a sociedade. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, contextualizada e aprofundada, trazendo os fatos que realmente importam para você.

Leia mais

PUBLICIDADE