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Greve paralisa linhas de trem em São Paulo em meio à crise da concessão e falhas

Greve paralisa linhas de trem em São Paulo em meio à crise da concessão e falhas
Foto: Felipe Marques/Estadão Conteúdo

Uma greve por tempo indeterminado dos funcionários das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) teve início à 0h desta terça-feira, 4 de agosto de 2026, mergulhando a mobilidade urbana de São Paulo em um novo capítulo de incertezas. A paralisação afeta diretamente mais de 800 mil passageiros que dependem diariamente desses ramais para se deslocar entre a Zona Leste da capital e cidades da Grande São Paulo, além do Aeroporto Internacional de Guarulhos.

A crise no transporte sobre trilhos se intensifica em um momento delicado, marcado pela recente e conturbada transição da operação dessas linhas para a iniciativa privada, seguida por uma suspensão e o retorno temporário da CPTM. A situação expõe as complexidades da concessão de serviços essenciais e seus impactos diretos na vida de milhões de paulistanos.

Paralisação e o impacto diário para milhares de passageiros

A greve dos ferroviários atinge um dos eixos mais movimentados do sistema de transporte metropolitano. As linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade são vitais para a conexão da Zona Leste da capital com municípios como Ferraz de Vasconcelos, Poá, Suzano, Mogi das Cruzes e Itaquaquecetuba. Além disso, a Linha 13-Jade desempenha um papel estratégico ao ligar a metrópole ao principal aeroporto do país, em Guarulhos.

Com a paralisação, passageiros enfrentam cenários de superlotação em ônibus e longas filas, buscando alternativas para chegar aos seus destinos. A interrupção do serviço não apenas causa transtornos imediatos, mas também levanta questões sobre a resiliência do sistema de transporte público diante de mudanças operacionais e reivindicações trabalhistas.

Histórico e a importância vital das linhas 11, 12 e 13

As linhas em questão possuem trajetórias distintas e uma relevância histórica e funcional inegável para a Grande São Paulo. A Linha 11-Coral, a mais antiga, tem suas raízes em um trecho ferroviário inaugurado em 1875, com obras iniciadas em 1869. Com 54,3 km de extensão e 17 estações, transportou em média 519.422 passageiros por dia útil no primeiro semestre de 2026, sendo crucial para integrações com outras linhas de trem e metrô em estações centrais.

A Linha 12-Safira, inaugurada em 1934 como Variante de Poá, foi projetada para otimizar o trajeto entre Tatuapé e Poá. Atualmente, com 38,8 km e 13 estações, atende a Zona Leste, Itaquaquecetuba e Poá, com uma média de 254.095 passageiros diários no mesmo período. Já a Linha 13-Jade, a mais recente, foi inaugurada em 31 de março de 2018 com o objetivo estratégico de conectar o Aeroporto Internacional de São Paulo. Com 8,7 km e três estações, transportou cerca de 27.739 passageiros por dia útil no primeiro semestre de 2026, complementada desde fevereiro de 2026 pelo Aeromóvel que liga a estação aos terminais do aeroporto.

Concessão conturbada: da privatização à suspensão da Trivia Trens

O pano de fundo da greve é a complexa transição da operação das linhas da CPTM para a iniciativa privada. Em março de 2025, o Grupo Comporte Participações S.A., por meio da concessionária Trivia Trens, venceu o leilão na B3 para operar os três ramais por 25 anos, com um investimento previsto de R$ 14,3 bilhões. A operação assistida teve início em maio de 2026, visando uma transição gradual que, segundo o governo, levaria ao menos dois anos para evitar os problemas observados em concessões anteriores.

No entanto, a Trivia Trens assumiu oficialmente a operação à 0h de 21 de julho de 2026, e os primeiros dias foram marcados por uma série de falhas. Passageiros relataram atrasos, plataformas lotadas e escadas rolantes paradas. O ápice da crise ocorreu em 23 de julho, quando um trem da Linha 12-Safira sofreu uma explosão entre as estações Brás e Tatuapé, causando correria e carbonizando um vagão, embora sem feridos. A Artesp, agência reguladora, suspendeu a operação da concessionária, e a CPTM reassumiu os serviços por 90 dias a partir de 24 de julho, uma medida inédita para o governo paulista. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) chegou a alertar sobre a possibilidade de perda da concessão caso as obrigações contratuais não fossem cumpridas.

Reivindicações dos grevistas e o futuro da operação

Os funcionários da CPTM em greve defendem a reestatização definitiva das linhas 11, 12 e 13, a garantia de todos os empregos na estatal e a aprovação do Projeto de Lei (PL) nº 730/2025 na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). Antes do processo de privatização, a CPTM operava sete linhas na Grande São Paulo, e hoje administra apenas a Linha 10-Turquesa, tendo implementado um plano de demissão voluntária (PDV).

A Trivia Trens, por sua vez, informou ter cerca de 2.400 colaboradores, sendo 2.100 diretamente na operação e manutenção. Desse total, aproximadamente 230 vieram da CPTM, e cerca de 90% são novos profissionais que passaram por mais de 1.300 horas de treinamento. A empresa alega ter assumido um sistema complexo com gargalos estruturais e mantém diálogo com o poder público para aprimorar o serviço. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) instaurou um inquérito civil para investigar as falhas iniciais da concessionária, adicionando mais uma camada de escrutínio sobre o futuro do transporte ferroviário na metrópole.

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